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HUANG TI NEI CHING: O PRIMEIRO TEXTO SOBRE ACUPUNTURA

 O Huang Ti Nei Ching ou o Classico de Medicina Interna do Imperador Amarelo é uma compilação, concluída provavelmente entre o século II e I A C, feita através de um suposto dialogo entre o lendário Imperador Amarelo ( 2698 a 2598 A C ) e seu ministro Qi Bo. O livro é dividido em duas partes: O Su Wen e o Ling Shu. Birch e Felt afirmam:

“ Há duas seções cada uma composta de múltiplos livros: o Su Wen ou “Questões Fundamentais” e o Ling Shu ou “Eixo/Pivo Espiritual”. No primeiro livro a conversa elucida alguns pontos sobre a teoria médica. O outro livro é essencialmente um manual de acupuntura. Tradicionalmente a data atribuída a este livro é o período entre os anos 2698 a 2599 A C, período também atribuído ao Imperador Amarelo, mas os estudiosos do assunto concordam atualmente que o Nei Ching foi concluído provavelmente entre o século II e o século I A C.” (Birch e Felt, 2002:19)

    O “Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo” na verdade é uma compilação do conhecimento médico desenvolvido na China, por vários autores, até o século I A C.A versão do tratado que chegou aos nossos dias foi escrita por Wang Ping no século VIII da nossa era. No prefácio do Nei Ching, Wang Ping escreve:

“ Qualquer um que deseje subir a montanha Tai não pode faze-lo sem uma estrada; qualquer um que deseje viajar ate o Japão não pode chegar lá sem um barco. Então eu investiguei, cuidadosamente, os textos originais  e visitei extensivamente as pessoas que podiam me ajudar. Após doze anos de estudo, agora eu finalmente entendi os princípios. Eu investiguei os pontos corretos e os pontos errados e o resultado satisfaz o meu antigo desejo. Eu recebi o segredo original, as edições escondidas do mestre mais importante, sua excelência Zhang Zhong Jin na casa de meu professor Guo Zi Zhai, a escrita neste texto é muito clara, os princípios e a razão do seu conteúdo são muito completos; E ao utilizá-lo com o propósito de interpretação, muitos pontos duvidosos desapareceram como o gelo derretido. Como eu tenho medo que estes textos possam desaparecer em minhas mãos e como conseqüência o material de ensino irá desaparecer, eu escrevi um comentário com o objetivo de perpetua-lo eternamente. Eu combinei isto com o texto em minhas posses em um livro de 81 capitulos e 24 rolos. A minha intenção é investigar a calda para entender a cabeça, investigar os comentários para entender o clássico, desenvolver o conhecimento médico para os homens jovens e espalhar largamente os princípios mais elevados.”  ( Wang Ping, século VIII: 5)

           

     Este comentário de Wang Ping, do século VIII da nossa era, demonstra a importância do Huang Ti Nei Ching dentro da história da Medicina Chinesa, com certeza é um texto que mostra a evolução do pensamento médico na China desde Ma Wan Tui, manuscrito mais antigo que não cita a acupuntura nem os acupontos. Outra interessante observação de Wang Ping foi sobre Zhang Zhong Jin, médico do final da dinastia Han, que escreveu dois trabalhos no século II da nossa era, aqui ele é denominado ‘o mestre mais importante sua excelência Zhang Zhong Jin.’O que confirma a sua grande fama posterior a dinastia Han. Nas palavras de Birch e Felt podemos compreender a importância do Huang Ti Nei Ching dentro da evolução dos conceitos da  medicina mágico-demonologica para a medicina de correspondência sistemática:

“A contribuição dada pelo texto e seu lugar na historia são claras: não pode ser nada menos que a gênese da medicina na China, mesmo que houvessem textos e fatos mais importantes, que nunca saberemos. Simboliza o momento em que as idéias essenciais sobre doença e tratamento alcançam a maturidade. A doença já não significava mais uma das muitas  catástrofes para as quais o ser humano buscava o socorro sobrenatural. A medicina se tornara um esforço humano dissociado da religião. O texto não apenas congregou em uma única fonte os aspectos mais fundamentais da medicina de correspondência sistemática, como também chamou a atenção para a necessidade de ter tratamentos distintos para sintomas individuais, idéia que permanece ate o presente. Como pedras não lapidadas, as idéias possuem bordas ásperas e ainda precisam ser polidas e apresentadas de forma mais elegante. Contudo os 162 artigos do Nei Ching mostram não apenas a absorção e extensão da teoria do Yin-Yang e a incorporação dos conceito relativamente mais recente dos cinco elementos, mas também focaliza os sintomas individuais como sendo somáticos em vez de serem efeitos sobrenaturais. Pela importância desta obra, o Huang Ti Nei Ching, não é rigorosamente estruturado nem sistemático. O livro fica mais bem compreendido como sendo a primeira mais antiga tentativa de reunir a arte da medicina a partir das várias escolas de pensamento médico que sobreviveram ate o período da dinastia Han. Por tanto o Nei Ching nos permite dar uma olhada nas bases da Medicina Tradicional Chinesa em relação a anatomia, fisiologia e as raízes das teorias da patologia e seu tratamento. O livro é uma janela que se abre para a medicina de correspondência sistemática da forma como esta amadureceu; um período de transição em que a acupuntura havia se tornado a terapia mais importante e os conceitos da correspondência sistemática haviam assumido o papel principal. No entanto nem as técnicas nem as bases do conceito haviam alcançado a elaboração final.”(Birch e Frelt, 2002: 19)

           O Nei Ching descreve os 12 meridianos principais bilateralmente e 295 acupontos. Estes canais conduzem o Qi, substancia que é descrita em parte como um produto do corpo, parte como produto do ambiente. Os meridianos ou Jing relacionam-se com os 11 orgãos internos: os cinco zang eram o coração, o fígado, o baço, os pulmões e os rins e os seis fu eram vesícula biliar, o estomago, o intestino grosso, o intestino delgado, a bexiga e o triplo aquecedor uma entidade não física ligada a uma grande variedade de funções corporais. A principal forma de diagnostico proposta era o exame do pulso modernamente denominado  de “pulsologia chinesa”. Ilza Veith no seu estudo do Nei Ching comenta:

 

“ O principal meio de diagnostico empregado no Nei Ching é o exame do pulso. Todos os outros métodos de determinar as doenças são somente subsidiários a palpação e utilizados principalmente em conexão com ela. A teoria do pulso é baseado sobre os vários estágios de interação entre o Yin-Yang e sobre as crasias e discrasias dos cinco elementos. O correto equilíbrio do Yin-Yang e a mistura harmoniosa dos elementos leva a saúde; a falta de equilíbrio e a desarmonia causa doença. O sistema de palpação proposto pelo Nei Ching, acreditava-se ser eficaz no diagnóstico da natureza e localização de qualquer tipo de doença. A base da sua prática era a crença que o pulso consistia na verdade de seis pulsos, três conjuntos de pulsos em cada mão, cada um conectado com uma parte do corpo em particular, e capaz de registrar a menor alteração patológica no corpo.” (Veith, 1972: 42)

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

O NAN CHING: UMA EVOLUÇÃO NA PRÁTICA DA ACUPUNTURA

O nome Nan Ching foi traduzido como “Um Clássico Sobre Questões Difíceis”. Atualmente a maioria dos pesquisadores afirma que o livro tenha sido compilado entre os séculos I e II da nossa era. Citamos as palavras de Unschuld na sua tradução do clássico

“…eu tenho me referido ao Nan Ching como um trabalho do primeiro ou início do segundo século D C; pode inclusive ter sido escrito uma poucas décadas anterior ao primeiro século D C. Eu concordo com a opinião que o Shan Han Lun foi influenciado pelo Nan Ching, e eu concordo com aqueles comentadores que viram uma significante lacuna entre a linguagem e os conceitos utilizados no Nan Ching e aqueles encontrados no Nei Ching, uma lacuna que sinaliza desenvolvimento assim como diferença. Eu estou convencido que o Nan Ching foi compilado para superar a heterogeneidade e a natureza não sistemática dos conceitos das escolas médicas do Huang Chi Nei Ching, e especialmente para desenhar as conseqüências conceituais e clínicas da descoberta da circulação da influência-vapor no organismo. Em minha opinião os textos do Nei Ching sobre agulhamento e diagnóstico revelam um estágio de desenvolvimento que é maior que aquele dos textos desenterrados das tumbas de Ma Wan Dui (168 A C) e também maior que aqueles indicados na biografia de Shun-yu I (216 a 150 A C) no Shih-chi ( compilado em 90 A C ). Logo os textos do Nei Ching não podem ter sido compilados antes do segundo ou primeiro século A C ….O Nan Ching, então deve ter sido escrito após o aparecimento dos textos do Nei Ching sobre agulhamento e diagnóstico pelos meridianos, e antes do aparecimento do Shang- Han Lun no segundo século …” ( Unschuld, 1986:34)

Os capítulos do Nan Ching são dispostos de maneira variada e não existe um consenso dos historiadores da Medicina Chinesa sobre o autor do livro. O Nan Ching é considerado uma evolução do Nei Ching através do amadurecimento da medicina de correspondência sistemática onde os aspectos da prática médica são integrados nas doutrinas do Yin-Yang e das Cinco Fases ou Elementos. Sobre a contribuição do Nan Ching para o desenvolvimento da Medicina Chinesa; Birch e Felt afirmam:

“Embora as farmacoterapias tradicionais chinesas não estivessem ainda integradas dentro do paradigma do Qi até o século XII, o Nan Ching marca um momento em que toda a heterogeneidade do Nei Ching já havia se dissipado. As pedras preciosas das idéias já estavam selecionadas, lapidadas e reluzentes e, mesmo que o acabamento não estivesse totalmente concluído, a extensão e o valor deste tesouro eram claros. Embora muitos termos do Nei Ching ainda permaneçam, são usados de forma diferente. Nota-se a completa ausência da demonologia e da magia. Semelhante ao Nei Ching a acupuntura é a prescrição principal adotada, ou melhor é a única forma adotada como tratamento. Só que  aqui se abre um novo caminho: a escolha dos acupontos baseia-se na sistematização  do conceito da circulação do Qi.” (Birch e Felt, 2002: 23)

O desconhecido autor do Nan Ching sistematizou uma imagem do organismo humano. Este sistema está conectado internamente por meio de influências que se comportam de acordo com os princípios do Yin-Yang e das 5 Fases  desta forma propiciam uma infinita variedade de opções terapêuticas, que são selecionadas por um método racional de diagnóstico: a palpação do pulso ou pulsologia chinesa que permite investigar todos os dados importantes para formar uma imagem mental do estado do paciente e seus desequilíbrios. Depois do Nan Ching a medicina se libertou das influências da religião ou seja abraçou o pensamento que o ser humano está conectado com a natureza através do eterno fluxo do Qi.

   

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

A TRADIÇÃO CHINESA

  CAPITULO I : A   TRADIÇÃO   CHINESA

A  história da medicina chinesa começa em tempos pré-históricos com o mito: a lenda do Imperador Amarelo, Huang Ti, que reinava na região central da China ( Hoizey ; A History of Chinese Medicine) e o seu rival o Imperador do Fogo que comandava as terras ao sul da China. Conta a lenda que o Imperador do Fogo tinha o poder de, ao provar uma planta, determinar a natureza desta planta e também é creditado a ele o ensino do cultivo dos  cereais , de onde vem o seu titulo de fazendeiro divino, Shen Nung.

Shen Nung e Huang Ti são personagens lendários da Medicina Chinesa e ambos deram seus nomes a dois grandes clássicos : o Huang Ti Nei Ching ( O Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo) e o Shen Nung Pen-Tsao Ching ( O Clássico da Medicina Herbácea ).

A   DINASTIA   ZHOU

A dinastia Zhou é dividida em: Western Zhou do XI  século A.C. ao ano 771 A.C. e a Eastern Zhou que vai de 770 A .C. a 221 A .C..( A Concise History of China , Bozan, Xunzheng e Hua). A dinastia Zhou, como muitas que a sucederam, estabeleceu-se por meio da conquista sobre a dinastia anterior os Shang ( 1523 a 1027 A.C. ) esta era foi considerada a idade clássica do bronze  na China ( Entendendo a Acupuntura, Birch e Felt).

 A familia Zhou conseguiu consolidar o seu poder sobre os Shang, dinastia anterior que reinou do século XVII A.C.. ao século XI  A. C., com ajuda de nobres dissidentes dos Shang. Esta conquista dos Zhou  teve suas raízes na falha da dinastia anterior em guardar seus territórios adequadamente e também na superioridade agrícola dos Zhou sobre os Shang.

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Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

 

 

 

A ESCOLA DO YIN–YANG

 A teoria do Yin-Yang é tão antiga que muitas vezes confunde-se com a história da própria China. É difícil precisar exatamente quando surgiu pela primeira vez este pensamento, porém  Marcel Granet em “O Pensamento Chinês” relaciona as primeiras referências ao Yin-Yang  ao I-Ching:

“Não surpreende, portanto, constatar (levemos em conta aqui os acasos que regeram a conservação dos documentos) que as mais antigas exposições  conhecidas sobre o Yin-Yang estão contidas no Hi Zi, pequeno tratado anexado ao I Ching (o único manual de adivinhação que não se perdeu). Tampouco surpreende que o autor do Hi Zi fale do Yin-Yang sem pensar em dar uma definição deles. Na verdade basta lê-lo sem preconceitos para perceber que ele procede por alusão a idéias conhecidas. Veremos, inclusive, que o único aforismo contendo as palavras Yin e Yang em que podemos adivinhar a ideia que ele fazia destes símbolos aparece como uma fórmula pronta, um verdadeiro adágio: aliás, é nesse fato que reside a única possibilidade que nos é dada de conseguir interpretar este aforismo.

“Uma (vez) Yin, uma (vez) Yang ( yi Yin yi Yang), nisso está o Tao”, escreve o Hi Zi. Todo este adágio tem que ser adivinhado. A tradução mais literal corre o risco de falsear-lhe o sentido. A que acabo de fornecer já é tendenciosa sugere a interpretação: “um tempo de Yin, um tempo de Yang…” Sem dúvida existe a possibilidade de que o autor preocupado com a adivinhação encare as coisas do ponto de vista do tempo; entretanto, tomada em si, a fórmula poderia igualmente ler-se: “um ( lado) Yin, um (lado) Yang…” (Granet, 1997: 85)

O I Ching, livro das mutações, seria a referência mais antiga a teoria do Yin-Yang mas quando surgiu este antigo “oráculo chinês”, que foi dividido em 64 hexagramas  Richard Wihelm afirma:

“Segundo a tradição geralmente aceita, sobre a qual não temos motivo para levantar suspeitas, a atual compilação dos sessenta e quatro hexagramas teve sua origem com o Rei Wen, antecessor da dinastia Zhou. Diz-se que ele acrescentou breves julgamentos aos hexagramas durante o período que estava aprisionado por ordem do tirano Chou Hsin. O texto relativo as linhas foi redigido por seu filho, o Duque de Chou. Sob esta forma, com o título de “As Mutações de Chou”( Chou I ) foi usado como oráculo durante o período da dinastia Zhou como demonstram vários antigos registros históricos.” (Wilhem, 1983:11)

Apesar de Wilhelm colocar o I-Ching na época anterior a dinastia Zhou, Alaíde Mutzenbecher em seu trabalho sobre o I-Ching vai além:

“Composto apenas de duas forças, opostas e complementares, reconhecidas como primordiais desde o assentamento dos primeiros grupos tribais as margens do Rio Amarelo, no alvorecer da civilização chinesa, o fluxo do Yin-Yang admiravelmente sintetizado nas seis linhas ou etapas de cada hexagrama se constituía então dos traços impressos nas carapaças das tartarugas ou nos ossos dos animais. Impossível iniciar uma data que os chineses iniciaram a captação desta dinâmica energética. O par de forças inaugurais nas suas concatenadas variações, forma uma totalidade de possibilidades ( 8 x 8 ) resultando nos 64 hexagramas. Configura as energias vigentes entre céu e terra, codificadas apenas por linhas, em que as inteiras são denominadas Yang ______ e as partidas Yin ____ bem como todas as composições delas decorrentes. Tudo se resume em última instância, a malha de conexões dos pólos positivo e negativo, em todas as suas variações possíveis. Este foi também o texto fundador das ciências e das artes chinesas, incluindo as percepções das vibrações do corpo humano, ressaltadas na sua medicina, e dos espaços e construções habitados, enfatizadas no Feng Shui. Este mesmo fluxo energético constitui as bases da caligrafia a da pintura chinesa, e de todas as artes marciais do oriente. As implicações das mútuas repercussões dos pólos positivo Yang e negativo Yin constam das ciências mais modernas, pois se evidenciam na dinâmica da eletricidade e dos computadores, para citar apenas dois exemplos.“ (Mutzenbecher, 2002: 12 e 13)

Originalmente os ideogramas que representavam o Yin e o Yang significavam o lado escuro e o lado claro de uma montanha respectivamente. No Shih-Ching, uma coleção de canções populares do primeiro milênio a.C. faz a seguinte associação:

“O Yin está associado aqui com o frio, nublado, chuva, feminino, dentro e escuridão, enquanto o Yang simboliza uma linha de correspondência associada com: o brilho do sol, calor, primavera, verão e masculino.” (Unshuld,1985:55)

Na doutrina do Yin-Yang os termos Yin e Yang não apresentam nenhum significado específico, eles funcionam como símbolos utilizados para caracterizar duas linhas de correspondência. No Zouzhuan, comentário de Zou, uma crônica do período Zhou atribuída A Yi He, que teria vivido por volta do ano 540 A C observamos a aplicação da teoria do Yin-Yang a medicina:

“As seis influências são yin, yang, o vento, a chuva, a escuridão e a luz… um excesso de yin causa calafrios; um excesso de yang causa febre, um excesso de vento causa enfermidades nos membros; um excesso de chuva causa enfermidade no estômago; um excesso de escuridão afeta a mente; um excesso de luz afeta os sentimentos.”(Hoize e Hoize, 1993: 88)

Nesta afirmação de Yi He, médico durante a dinastia Zhou, observamos a importante utilização da medicina de correspondência sistemática aplicada as mudanças climáticas e a teoria do Yin-Yang. Yin Hui He e Zhang Bai Ne resumem a lei da oposição e restrição do Yin-Yang no seguinte parágrafo:

“A teoria do Yin e do Yang considera que qualquer objeto ou qualquer manifestação do mundo material está incluso no antagonismo complementar dos dois aspectos Yin e Yang, como o em cima e o embaixo, a direita e a esquerda, o céu e a terra,o movimento e o repouso, a saída e a entrada, o dia e a noite, o claro e o escuro, o frio e o quente, a água e o fogo etc. O Yin e o Yang enquanto antagônicos formam uma unidade que é por sua vez resultado deste antagonismo. Em outras palavras o antagonismo entre os dois em um aspecto de oposição e a unidade dos dois tem aspecto da complementaridade. Se não há antagonismo, não há unidade. Se não há oposição, também não há complementaridade. A principal manifestação característica do antagonismo complementar entre Yin e Yang é a mútua restrição. O resultado é que o Yin e o Yang alcançam a unidade no equilíbrio dinâmico denominado: o Yin floresce suavemente e o Yang estimula firmemente. Nas variações climáticas entre o morno, o calor, o fresco e o frio das quatro estações, o morno e o calor da primavera e do verão acontecem enquanto a energia Yang aumenta gradativamente, inibindo a energia fria e fresca do outono e inverno. O frio e fresco do outono e inverno acontecem enquanto a energia Yin aumenta gradativamente, inibindo a energia quente e morna da primavera e do verão. Isto é o resultado da mútua inibição e do equilíbrio dinâmico existente entre o Yin e o Yang da natureza.”  ( He e Ne, 1999: 19)

Esta colocação de Yin Hui He e Zhang Bai Ne resume a alternância e a complementaridade do Yin-Yang na natureza. Mas a medicina de correspondência sistemática utilizou, principalmente a partir do século V A C, a teoria do Yin-Yang aplicada as enfermidades. Com relação a aplicação do Yin-Yang a medicina Maciocia afirma:

“Poder-se-ia dizer que a Medicina Chinesa como um todo, sua fisiologia, patologia, diagnóstico, e tratamento, podem ser reduzidos a teoria básica e fundamental do Yin e do Yang. Todo processo fisiológico e todo sintoma ou sinal podem ser analisados sob a ótica da teoria do Yin-Yang. Cada parte do corpo humano apresenta um caráter predominantemente Yin ou Yang, muito importante na prática clínica. Deve-se enfatizar todavia que este caráter é somente relativo. Por exemplo, a área torácica é Yang em relação ao abdome (por ser mais alta), mas Yin em relação a cabeça.

Os caracteres Yin e Yang das estruturas corporais  são :                

Yang                                                       Yin

Superior                                                  Inferior

Exterior                                                   Interior

Superfície póstero-lateral            Superfície antero-medial

Costas                                                       Frente

Função                                                      Estrutura

Cabeça                                                     Corpo

Exterior (pele-músculos)               Interior ( órgãos )

Acima da cintura                                Abaixo da cintura

Função dos órgãos                             Estrutura dos órgãos

Qi                                                                 Sangue”

(Maciocia, 1996:9) 

 

A medicina de correspondência sistemática apresenta além da teoria do Yin-Yang mais três conceitos que são fundamentais dentro do seu desenvolvimento como uma racionalidade médica: As 5 fases , também chamadas de 5 elementos ou movimentos ( wu xing ), a teoria do Qi e os meridianos chineses ( jing luo ). Iremos analisar cada uma destas teorias que compõem a racionalidade médica chinesa nos primórdios de seu desenvolvimento histórico.

 

AS 5 FASES ou 5 MOVIMENTOS – WU XING

 

A teoria das 5 Fases, movimentos ou elementos (Wu Xing) junto com a teoria do Yin-Yang são as bases da medicina de correspondência sistemática que veio mudar o paradigma da saúde na China, principalmente a partir do século V a.C. Não estamos afirmando aqui que a medicina mágico-demonológica deixou de existir mas que os médicos do final da dinastia Zhou iniciaram um processo de buscar na natureza e seus fenômenos a causa das doenças e deixou-Se para os Shamans, que ainda estavam em franca atividade, as relações com o sobrenatural, ou seja com a magia, espíritos e demônios. O famoso escritor e acupunturista Giovanni Maciocia afirma:           

“Pode-se dizer que a Teoria dos Cinco Elementos e sua aplicação na medicina marcam o início do que nós podemos chamar de “medicina científica” e o início da partida do Shamanismo. Os curadores não mais procuravam uma causa sobrenatural para as patologias: agora eles observam a Natureza e, com uma combinação dos métodos indutivo e dedutivo, começam a achar os padrões dentro disto e, por extensão, os aplicam na interpretação das patologias.”  (Maciocia, 1996; 23)

O livro Shang Shu, é provavelmente a mais antiga referência aos Cinco Elementos, ou como prefere Ted  Kapchup ( Kapchup, 1983: 343) “As Cinco Fases”, que chegou aos nossos dias. Acredita-se que tenha sido escrito no período médio da dinastia Zhou  entre 659 a 627 A C:

“Os Cinco Elementos são: Água, Fogo, Madeira, Metal e Terra. A Água umedece em descendência, o Fogo chameja em ascendência, a Madeira pode ser dobrada e esticada, o Metal pode ser moldado e endurecido, a Terra permite a disseminação, o crescimento e a colheita.” (Maciocia, 1996: 23)

Em seu pioneiro trabalho sobre a Medicina Chinesa no ocidente, “The Web That Has No Weaver”, Ted Kapchup comenta o erro nas traduções do Wu Xing pelos autores ocidentais:

“As Cinco Fases não são de maneira nenhuma constituintes da matéria. Este equívoco tem sido incorporado no erro comum de tradução; “Cinco Elementos” e exemplifica os problemas que surgem ao olharmos as coisas chinesas com o modelo de referência ocidental. O termo chinês que nós traduzimos como Cinco Fases é Wu Xing. Wu é o número cinco e Xing significa andar ou mover e talvez, mais adequadamente, nos traz a idéia de um processo. O Wu Xing, portanto são cinco tipos de processos, por conseguinte as Cinco Fases e não os Cinco Elementos. A teoria das fases é um sistema de correspondências e padrões que inserem eventos e coisas, especialmente em relação as suas dinâmicas. Mais especificamente cada Fase é um emblema que denota uma categoria de qualidades e funções relacionadas. A Fase chamada Madeira está associada com funções ativas que estão na fase de crescimento. O Fogo designa uma função que atingiu o seu máximo estado de atividade e está para começar a declinar ou entrar em um estado de repouso. Metal representa a função em um estado de declínio. A Água representa a Fase que atingiu o máximo estado de repouso e está para mudar em direção a atividade. Finalmente a Terra designa equilíbrio ou neutralidade, em certo sentido, a Terra é o pára-choque entre as outras Fases. Em um sentido que as Fases correlacionam-se a fenômenos observáveis da vida humana dentro de imagens derivadas do macrocosmos. Elas têm uma função similar dos elementos em outros sistemas médicos. Em termos mais concretos as Cinco Fases podem ser usadas para descrever os ciclos biológicos em termos de crescimento e desenvolvimento. A madeira corresponde a Primavera, O Fogo ao verão, o Metal ao outono e a Água ao inverno. E a Terra corresponde a transição em cada estação.” (Kapchup, 1983: 343)

Os Cinco Elementos ou Fases correspondem a cinco tipos de movimentação da matéria. O povo da China antiga durante os longos anos de existência, reconhecia a madeira, o fogo, a terra, o metal e a água como os elementos mais básicos e indispensáveis da natureza e os denominava as cinco matérias Wu Cai.

O principal expoente da teoria das Cinco Fases, Wu Xing, foi Zou Yan, que viveu entre 350 a 270 A C, ele procurava interpretar as mudanças sócio-políticas de acordo com a teoria dos Cinco Elementos, certa vez afirmou:

“Cada um dos Cinco Elementos é seguido por outro que não pode dominar. A dinastia Shun, dominava pela virtude da Terra, a dinastia Xia dominava pela virtude da Madeira, a dinastia Shang dominava pela virtude do Metal e a dinastia Zhou dominava pela virtude do Fogo. Quando alguma dinastia nova está para se Formar, o céu exibe sinais propícios para as pessoas. Durante a ascensão da dinastia Huang Ti ( o Imperador Amarelo), vermes e formigas grandes apareceram. Ele disse: “isto indica que o elemento Terra está em ascensão, então a cor deve ser amarela, e os nossos negócios devem estar identificados de acordo com os sinais da Terra”. Durante a ascensão de Yu, o Grande, o céu produziu plantas e árvores as quais não murcham no outono nem no inverno. Ele disse: isto é uma indicação de que o elemento Madeira está em ascensão, então nossa cor deve ser verde e nossos negócios devem estar identificados de acordo com os sinais da madeira’… (Maciocia, 1996: 24)

Existem, tradicionalmente, duas sequências de relações entre os Cinco Movimentos, Fases ou Elementos: A seqüência de geração e a seqüência de dominância que tem implicações na fisiologia, patologia, diagnóstico  e tratamento na Medicina Chinesa de correspondência sistemática. Foge ao objetivo desta pesquisa detalhar cada uma das aplicações das Cinco Fases na Medicina Chinesa mas vamos citar as palavras de Maciocia em relação as seqüências de geração e dominância:

“Na seqüência de geração cada Elemento gera o outro, sendo ao mesmo tempo gerado. Assim a Madeira gera o fogo, o Fogo gera a Terra, a Terra gera o Metal, o Metal gera a Água, e a Água gera a Madeira. Desta forma, por exemplo, a Madeira é gerada pela água, que por sua vez gera o Fogo. Isto é algumas vezes expressado como; a Madeira é filha da Água e mãe do Fogo. Na seqüência de controle cada elemento controla o outro ao mesmo tempo que é controlado. Assim Madeira controla a Terra, Terra controla a Água, a Água controla o Fogo, o Fogo controla o Metal e o Metal controla a Madeira. Por exemplo: a Madeira controla a Terra mas é controlada pelo Metal. A seqüência de Controle assegura que um equilíbrio seja mantido entre os Cinco Elementos.” ( Maciocia, 1996: 27)

Posteriormente, As Cinco Fases ou Cinco Elementos foram associados a teoria do Yin-Yang, que era mais antiga e utilizados em conjunto na medicina de correspondência sistemática. Este sincretismo entre as teorias do Yin-Yang e das Cinco Fases com o conceito do QI e dos meridianos chineses, Jing-Lo, veio formar os pilares da medicina de correspondência sistemática, que apresenta como primeiro texto o Huang Ti Nei Ching; compilação dos conhecimentos da Medicina Chinesa clássica até o século II a.C.

Em relação a correspondência dos Cinco Elementos dentro da Medicina Chinesa Giovanni Maciocia afirma:

“O sistema de correspondências é uma parte importante da Teoria dos Cinco Elementos. Este sistema é típico do pensamento chinês, conectando muitos fenômenos diferentes e qualidades dentro do microcosmo e o macrocosmo sob a proteção de um determinado Elemento. Os antigos filósofos chineses encontraram uma relação entre fenômenos aparentemente não conectados como um tipo de “ressonância” entre os mesmos. Vários tipos de fenômenos estariam unificados por uma qualidade comum indefinida, assim como dois fios vibrariam em uníssono. Um dos aspectos mais típicos da Medicina Chinesa é a ressonância comum entre os fenômenos da Natureza e do organismo. Algumas destas correspondências são amplamente verificadas e experimentadas o tempo todo na prática clínica, sendo que algumas parecem não convincentes, mas persiste a sensação de que há uma sabedoria profunda por trás de todas elas, a qual é ocasionalmente desconhecida.” (Maciocia, 1996:28)

Algumas das correspondências dos Cinco Elementos:                                                               

                      Madeira               Fogo              Terra             Metal              Água

            

Estações         Primavera            Verão            Canícula        Outono           Inverno

 

Direções         Leste                     Sul                 Centro           Oeste             Norte

 

Cores              Verde                 Vermelho        Amarelo         Branco           Negro

 

Sabores           Ácido                 Amargo           Doce               Picante          Salgado

 

Climas            Vento                 Calor                Umidade         Secura           Frio

 

Desenvolvimento    Nascimento      Crescimento    Transformação   Colheita      Armazenamento   

 

Órgãos Yin      Fígado              Coração          Baço-Pâncreas     Pulmão          Rim

 

Víscera Yang    Vesícula         Intestino           Estômago            Intestino        Bexiga

                               Biliar            Delgado                                         Grosso

 

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

O BUDISMO: O TERCEIRO PILAR DO PENSAMENTO CHINES

A filosofia budista é o terceiro pilar do pensamento chinês, junto com o Taoismo e Confucionismo, que nasceu no século VI ou V AC na Índia com um homem conhecido como Siddharta Gautama. O Prof. Dr. Ricardo Gonçalves, do Departamento de Historia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo resume a vida de Buda:

 

“ Siddharta Gautama nasceu em data ignorada, provavelmente em meados do século VI A C, em Kapilavastu, no sopé do Himalaia, em território do atual Nepal. Era filho de Sudhodhana, nobre pertencente a assembléia que governava a pequena tribo dos saquias, tributária do vizinho reino de Kosala. Ele deveria herdar o cargo paterno, mas, ao completar 29 anos preocupado com problema do sofrimento humano e desejoso de encontrar um método para subjulgá-lo, abandonou a vida mundana e se tornou discípulo dos ascetas Alara Kalama e Uddaka Ramaputta, exercitando-se nas práticas das iogas preconizadas por estes mestres. Entretanto, tais práticas não o satisfizeram. Deixou então os mestres e praticou mortificações por seis anos. Ao cabo deste tempo foi levado a concluir que todos estes exercícios eram inúteis e imaginou então um novo método, passando a praticar meditação a sombra de uma arvore em Buddhagaya.Graças a esta meditação, logrou resolver todas as duvidas, realizando a experiência de iluminação ou satori, que consiste em obter o conhecimento correto de si mesmo e de todas as coisas. Procurando transmitir sua vivencia a outros, conseguiu reunir grande numero de simpatizantes e discípulos, antes de morrer com 80 anos.”(Gonçalves, 1992: 12)

 

Após a iluminação o Buda, o desperto ou iluminado, passou a pregar as “Quatro Nobres Verdades”. As eternas “Verdades” que são as concepções  centrais de seus ensinamentos:

 

                        “I -A Verdade de que toda a vida sensível envolve sofrimento.

                        II-A Verdade de que a causa dos repetidos renascimentos e sofrimentos

                            é a ignorância, associado ao desejo.

                       III-A Verdade que este processo de nascimento, morte e sofrimento pode

                             ser levado para um fim somente com a obtenção do Nirvana.

                      IV-A Verdade de que o Nirvana pode ser alcançado seguindo-se com per-

                            feição o Nobre Caminho Óctuplo que abrange Sila, Samadhi e Panna,

                            Isto é moralidade, meditação e compreensão intuitiva.

                       

A Quarta Nobre Verdade do Budismo é conhecida como Caminho Óctuplo, que se compõe do seguinte:       

                                                     

  1. Palavra Correta
  2. Ação correta
  3. Meio de Vida Correto
  4. Esforço (mental) Correto
  5. Atenção Correta
  6. Concentração Correta
  7. Pensamento Correto
  8. Compreensão Correta” (Silva, 1978: 12)

 

O pensamento de Buda foi bem acolhido na China durante a dinastia Han e influenciou as escolas de filosofia chinesa. Associado a filosofia de Buda chegou a China  antiga a medicina budista, que segundo a tradição teve como pioneiro o próprio medico de Buda:  Dr. Jivaka no século V A C. O professor Ricardo Gonçalves coloca:

O Budismo foi pregado pela primeira vez na China nas primeiras décadas do seculo I da era cristã, durante a Segunda Dinastia de Han. Cerca de dois séculos antes os chineses, tinham começado a controlar as rotas de comércio da Ásia Central, conhecida como Caminho da Seda. Foi por este caminho e pelas rotas de comércio marítimo que o Budismo entrou na China, trazido por monges e mercadores oriundos da Índia e de reinos da Ásia central convertidos a lei de Buda. Pelas mesmas rotas, entraram na China os textos Budistas indianos, que foram traduzidos para o chinês por uma brilhante plêiade de monges tradutores, indianos, iranianos e mesmo chineses, que faziam longas peregrinações a Índia em busca de textos para traduzir.”  ( Gonçalves, 1992: 23)

 

   A medicina budista afirma que existem quatro elementos que compõem o corpo humano. O Ratnakuta, traduzido para o chinês no segundo século da era cristã, afirma:   

 

“1- A terra abrange tudo que é sólido no corpo humano…

2- A água abrange tudo que é liquido no corpo humano…

3- O fogo abrange tudo que é quente no corpo humano…

4- O vento abrange tudo que é movimento no corpo humano”

(Unschuld,1985:141)

 

A doença surge quando um ou mais destes quatro elementos aumenta ou diminui excessivamente. Esta afirmação da medicina budista é idêntica a do Ayurveda, a clássica medicina Indiana, com a diferença que no Ayurveda existe um quinto elemento que é o espaço ou éter.

A estrutura filosófica da medicina budista sofreu nas mãos dos tradutores chineses. houve interpretações equivocadas e muito pouco da literatura encontrou identificação no acervo cultural chinês.O prof. Paul Unschuld coloca que há tantas obras chinesas que ainda não foram examinadas que não será surpresa se ainda ocorrer uma influencia budista.

        Hua to e Sun Si-miao ( 581 a 682D C) são citados como exemplos da influencia budista na Medicina Chinesa. Porem os esforços de Sun Si-miao em organizar a doutrina budista dos quatro elementos nas mesmas bases do paradigma do Qi, não foram suficientes para obter seguidores, talvez pelos erros matemáticos contidos na sua explicação. A falta de evolução e de seguidores nas técnicas de anestesia e cirurgia de Hua To ficaram sem explicação histórica. Uma possibilidade é que como sua história é muito semelhante a do médico indiano Jivaka, considerado o médico do próprio Buda, que Hua To seja uma fábula importada da Índia junto com o Budismo.

 

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

 

O ENCONTRO DAS TRADIÇÕES CHINESA E INDIANA

Na primeira parte deste trabalho pesquisamos a tradição chinesa no período de formação da Medicina Chinesa, a partir da dinastia Zhou quando se formou o pensamento chinês clássico que possui duas fontes distintas: o Taoísmo e o Confucionismo. Estes são dois pilares da tradição filosófica chinesa, o terceiro pilar o Budismo só teria alcançado a China no primeiro século da nossa era. Além da dinastia Zhou vimos as duas dinastias subseqüentes ; a pequena dinastia Qin e a revolucionária dinastia Han onde foram publicados os principais trabalhos clássicos da Medicina Chinesa.

Durante a segunda parte foi a tradição indiana o objeto de nosso estudo , no período de formação da escola médica clássica da Índia; o Ayurveda. Analisamos as possíveis influências desde a formação da civilização indiana, passando pelo período védico até chegarmos ao Budismo que, como vimos, teve um importante papel na sistematização da racionalidade médica Ayurvedica.

Agora iremos buscar os pontos de encontro entre estas duas tradições a partir de evidências que possam sugerir que o desenvolvimento destas duas escolas não tenha sido isolado mas sim baseado em possíveis intercâmbios de idéias e experiências que teriam influenciado ambas as civilizações  milenares. Nosso objetivo em momento algum será fazer afirmações ou colocar certezas mas trilhar o caminho da possibilidade e a partir disto lançar hipóteses e sugerir novas pesquisas dentro destas hipóteses.

Vamos iniciar esta discussão com a afirmação de Unschuld sobre o Budismo na China:

“ Condições históricas provaram ser favoráveis a doutrina budista….. Budismo entrou na China através da Ásia central no primeiro século. A indicação mais primitiva de uma comunidade budista na China é de 65 D C. Parece que a elite foi a primeira a ser atraída pelos novos ensinamentos. Mas, ao menos, no quarto século o budismo tinha alcança todos os níveis da sociedade. Era inevitável que tamanho fundamento ideológico também trouxesse uma nova dimensão ao tratamento das doenças, expandindo o já existente espectro do sistema terapêutico na China”…( Unschuld, 1985: 133

Com esta afirmação Unschuld coloca a importante questão das novas idéias e filosofias que entraram na China  a partir da expansão do Budismo que teve seu inicio no século III AC  com a conversão do imperador Ashoka ao pensamento de Buda. Sobre isto Svoboda afirma:

“No terceiro século  A C, Ashoka, imperador da maior parte do norte da Índia converteu-se ao budismo.. e ele enviou muitos embaixadores e missionários aos países vizinhos…” (Svoboda and Lade, 1995: 91)

Existe a possibilidade de que o primeiro contato entre as duas culturas tenha sido através de Ashoka, ou um pouco mais tarde no século II A C com a abertura das rotas comercias: Estrada da Seda e Estrada da Birmânia. Junto com a troca de mercadorias há a troca de idéias e filosofias neste momento histórico a China e a Índia se encontravam e em momentos auspiciosos para as duas tradições, pois a China estava iniciando a dinastia Han, um período demais de  400 anos com muitas transformações e a Índia estava em franca expansão do Budismo, filosofia que teve um papel fundamental no desenvolvimento do Ayurveda, pois como vimos muitos médicos indianos estavam diretamente relacionados ao pensamento de Buda. Não apenas isto, mas a filosofia budista, que nos seus primórdios  já pregava o conhecido “caminho do meio”,  influenciou o pensamento médico na Índia de uma forma mais liberal sem os “tabus” que controlavam a tradição religiosa hegemônica dos Vedas.

     As tradições médicas dos dois países têm muitas semelhanças, mas também muitas diferenças, ambas tiveram um forte apelo filosófico-religioso no seu desenvolvimento mas isto sem sombra de dúvida é muito maior atualmente na Índia que na China pois  o governo comunista procurou excluir da Medicina Tradicional Chinesa toda influência filosófico-religiosa e procurou conceber uma Medicina Chinesa “científica”, esta influência marxista não ocorreu na Medicina Indiana onde a influência religiosa continua sendo marcante.

Os Doshas ou humores biológicos indianos não têm paralelo na Medicina Chinesa, mas podemos fazer associações com a teoria do Yin-Yang e o Qi. Com relação a esta analogia Svoboda e Lade argumentaram:

“Embora tanto o Ayurveda quanto a Medicina Chinesa proponham um modelo de cinco elementos para a organização da base física do homem, na tradição médica indiana este modelo é simplificado e reduzido a uma teoria trinitária para a compreensão da fisiologia humana e as associações energéticas: a teoria dos três Doshas. Esse modelo Ayurvédico se articula bem com a conceituação que faz a Medicina Chinesa de Yin, Yang e Qi, potencial que nasce dos dois primeiros, embora os Doshas não possam ser igualados a seus correlatos chineses. Kapha se relaciona mais intimamente com a Água, exibindo os atributos deste Elemento e assim é análogo ao Yin. Pitta por sua vez corresponde a imagem do Yang, pois se relaciona ao Fogo, apresentando as qualidades deste elemento. E Vata, que está basicamente associado ao elemento Ar, sendo responsável por toda a forma de circulação, incluindo a de Prana, encontra paralelo na ideia chinesa de Qi.” ( Svoboda and Lade, 1995: 95)

Esta interessante afirmação dos autores faz uma analogia entre a fisiologia chinesa e indiana. Nós achamos que o conceito de Prana lembra muito o paradigma do Qi. Pois segundo o “Sanscrit English Dictionary” Prana é o “respirar da vida”, vento, inalação de ar e no Chinese-English Dictionary, Qi  significa gás, ar e respirar logo existe uma semelhança entre os dois conceitos.Ambos, Prana e Qi, circulam em condutos e atuam em órgãos e tecidos. A saúde está relacionada com a boa circulação destas “influências” pelo nosso corpo, e em ambas as tradições existem técnicas que utilizam a respiração e a concentração para mobilizá-los: Qi Gong (trabalho com o Qi) e Pranayama ( controle do Prana).

Na minha experiência pessoal com Qi Gong na China e Pranayama na Índia, nos anos 90 tive a oportunidade de observar a grande semelhança que existe entre os conceitos teóricos e a vivência prática destas duas escolas orientais. Ambas as técnicas procuram através da concentração da mente mobilizar o fluxo de Qi/Prana pelos condutos Jing Lo/Nadis ao associar este fluxo com as práticas de disciplinas respiratórias.

Ambas as doutrinas e filosofias enfatizam o equilíbrio através da integração com as leis da natureza e a moderação nos hábitos e nas ações. O caminho do meio budista está impregnado em ambas as tradições. Assim como a prática de exercícios físicos terapêuticos como o Tai Chi na China e o Hatha Yoga na Índia.

A Medicina Chinesa e Indiana fazem, ambas, uso de drogas de origem mineral, animal e vegetal. Porem, sem sombra de duvida, o ênfase é a fitoterapia, ou seja o uso terapêutico das plantas medicinais, e muitas são comuns as duas tradições. Além disso a massagem terapêutica é largamente empregada nas duas escolas de forma integrada com o diagnóstico do desequilíbrio do paciente. Sobre a integração das duas doutrinas e de sua fisiopatologia Svoboda e Lade afirmaram:

          “ Como o Ayurveda, em geral, se concentra mais na compreensão e no tratamento de tipos constitucionais, enquanto a Medicina Chinesa cuida predominantemente de padrões específicos de doenças, estes dois enfoques de um viver saudável são potencialmente complementares. Por exemplo, do ponto de vista da Medicina Chinesa, Kapha exibe características de hipoatividade.

Isso se manifesta no organismo como uma tendência ao peso e ao frio devido a deficiencia de Yang ( calor). Os fluidos corporais se acumulam facilmente, devido a uma circulação obstruída, e ocorre então a diminuição do funcionamento digestivo e metabólico. As doenças ligadas a umidade, frio e catarro se encontram dentro do domínio de Kapha. A disposição mental que distingue Kapha é o embotamento da mente, que provoca possessividade, melancolia, calma e a tendência a uma tolerância excessiva. Na Medicina Chinesa estas são síndromes básicamente associadas ao Baço e ao Estomago e secundariamente aquelas que envolvem Pulmões, Rins e Bexiga, que parecem mais intimamente relacionadas a Ka-pha…Pitta exibe a característica geral de hiperatividade atributo decididamente Yang.

No corpo isto se manifesta como leveza e calor, devido a deficiência de Yin corporal. Essa condição de excessivo calor prejudica o sangue e aumenta a atividade digestiva e metabólica. Na Medicina Chinesa os distúrbios ligados ao calor  (fogo e calor de verão ), incluindo a condição de calor no sangue, são considerados correspondentes a Pitta. A disposição mental deste Dosha envolve a agudeza da mente discriminação apurada, disposição agressiva, raiva e ciúme. Na Medicina Chinesa os padrões do Fígado e da Vesícula Biliar e secundariamente do Coração, do Intestino Delgado e dos Rins, relacionam-se mais intimamente com Pitta…Vata tem característica geral de ser móvel e instável como o vento, e produz um senso de constante alteração no corpo e na mente. Em excesso isto se manifesta como dores e sensações que não são fixas em manifestação e duração com uma tendência a secura. No Ayurveda, Vata esta intimamente ligado a Prana; e este na Medicina Chinesa pode ser comparado ao Qi. Assim a manifestação de Vata, corresponde a estado de deficiência de Qi e perturbações de sua circulação. O estado mental de Vata revela uma disposição mutável marcada pelo medo, mau humor, nervosismo, preocupação e impaciência. Na Medicina Chinesa o desequilibrio de Vata se correlaciona primariamente com os padrões orgânicos ligados as síndromes do Fígado e do Pulmão e secundariamente do Protetor do Coração, do Triplo Aquecedor e do Intestino Grosso…  (Svoboda and Lade, 1995: 113 e 114)

Esta colocação de Svoboda e Lade, extremamente interessante, coloca a possibilidade de complementaridade das duas escolas, pelos profissionais, sem perder as características fundamentais e peculiares de ambas as tradições. Nós acreditamos que as duas racionalidades médicas são complementares e podem ser usadas de forma associada na prática clínica, sem nenhum prejuízo para as suas doutrinas e filosofias.

     Quando desenvolvemos o pensamento médico chinês, nós colocamos que havia um “elo perdido” na história da mudança de paradigmas entre uma medicina mágico-demonológica baseado no contato com o sobre-natural, shamanista, e uma medicina de correspondência sistemática, baseada na observação dos fenômenos naturais. Pois no século II mais precisamente 168 A C nos manuscritos de Ma Wan Dui, existem meridianos, mas não há acupuntura, acupontos nem o paradigma do Qi tinha sido desenvolvido adequadamente porém no Huang Ti Nei Ching, compilado entre o segundo e o primeiro século antes de Cristo já encontramos uma mudança de paradigma com acupontos, circulação de Qi e acupuntura sistematizada. Surgiram três perguntas de difícil resposta:             

 1 – Como surgiu a medicina de correspondência sistemática?

2 – De onde veio a teoria do Qi e dos meridianos chineses?

3-  Como foi desenvolvida a acupuntura e os acupontos?

São perguntas que nós tentaremos formular algumas possíveis hipóteses associada as evidências que nós encontramos na literatura. A teoria da medicina de correspondência sistemática foi desenvolvida, esta é a nossa hipótese, através das observações dos sábios chineses dos fenômenos naturais que tem a sua maior representação na teoria do Yin-Yang e nas Cinco Fases ou Elementos que encontram ressonância nas mudanças das estações do ano e nos ciclos de alternância do dia e da noite. Possivelmente os filósofos taoístas tiveram uma importância neste desenvolvimento.

Além dos Taoistas temos que levantar a possibilidade de uma influência externa a China no desenvolvimento da teoria dos 5 Elementos ou Movimentos pois em fontes do período védico tardio encontramos referências aos elementos da natureza na tradição indiana. O Taittiriya Upanishad cerca de 600 A C afirma:

            “ Do Si-Próprio (atman) surgiu o espaço

               Do espaço, o vento

               Do vento, o fogo

               Do fogo, a água

               Da água, a terra

               E da terra, as plantas, alimentos…( Campbell, 2002: 337)

Como podemos observar o paradigma do Qi chinês é semelhante a teoria do Prana indiano e que ambas as “substâncias” fluem em condutos e que se relacionam a pontos vitais acupontos ou marmas. Unschuld afirma sobre a acupuntura na China:

“…Aparentemente um certo tipo de tratamento com agulhas existe de épocas desconhecidas. Iniciando no terceiro e especialmente no segundo século A C, a teoria dos meridianos se desenvolveu na base da inter-relação de todas as funções do organismo, por um sistema de canais interconectados por onde passam Qi e sangue. Somente quando estes dois itens surgiram: a teoria dos canais na fisiologia e patologia de um lado e a noção que certas doenças podem ser curadas se as agulhas forem puncionadas no músculo, somente quando estes dois componentes uniram-se ou seja  quando a noção de que puncionar as agulhas no corpo podia influenciar o curso do Qi e sangue somente neste momento a acupuntura surgiu. Puncionar as agulhas sem a noção da circulação de Qi nos canais não é acupuntura e não está restrito a China.” (Unschuld, por email 2003)

Com esta afirmação, Unschuld coloca que para a existência de acupuntura é necessário além das agulhas, o paradigma do Qi, os meridianos ou canais e os acupontos onde serão introduzidas as agulhas para influenciar a circulação deste Qi. Conceito fundamental para avaliarmos a  acupuntura indiana ou ayurvedica, como prefere  Dr. Frank Ros. Na Índia o conceito de circulação de Prana em canais é possivelmente anterior ao século II A C, assim como a teoria dos marmas relacionados a condutos e a circulação de Prana. Shifu Nagaboshi Tomio afirma:

 Na tradição moderna de acupuntura existe uma lenda, que é recontada, que a descoberta dos pontos vitais iniciou-se na Índia como resultado dos estudos e pesquisas em combate realizados pelos guerreiros Ksatreia indianos,  com o objetivo de descobrir os pontos vitais e mortais  no corpo que poderiam ser tocados em um combate com as mãos. É dito que eles experimentaram nos prisioneiros  puncionando seus corpos com agulhas-adagas de ferro e pedra. Esta lenda chinesa reflete e complementa o conto indiano onde é dito que após as batalhas efeitos terapêuticos apareceram de feridas superficiais,  recebidas pelos guerreiros na batalha, feitas com adagas ou flechas. Por associar a cura dessas feridas com a lesão pelas adagas ou flechas vários médicos iniciaram uma experimentação com agulhas em si mesmo ou nos outros com objetivo de descobrir os pontos e áreas de valor terapêutico e quaisquer outros que a energia pode ser gerada ou dispersa. Estes pontos foram reconhecidos como regiões especiais do corpo onde a energia poderia ser modificada, ou alterada por influências externas,  como pressão dos dedos ou manipulação.” (Tomio, 1994:145)

 A nossa tentativa é pegar várias peças separadas em diferentes fontes e juntar o “quebra cabeça” da acupuntura e tentar propor uma hipótese que possa explicar o surgimento “aparentemente do nada” da acupuntura na China em torno do século II AC. Ao unirmos todos estes dados, como um “Sherlock Holmes” da história podemos apresentar a hipótese que a Índia estava em condições de desenvolver através da experimentação nos pontos marmas, um sistema semelhante a acupuntura chinesa, chamada de Suchi Veda, ou literalmente conhecimento das agulhas.     

As transformações que levaram mudança de paradigma de uma medicina ancorada nas forças sobrenaturais, mágico-demonológica, para uma medicina do contato com a natureza ou de correspondência-sistemática na China. Também ocorreu em épocas semelhantes ou seja segunda metade do primeiro milênio antes da nossa era na Índia, com  a transformação de paradigmas que aconteceu na Medicina Indiana. A medicina mágico-religiosa dos Vedas, que nunca deixou de existir, foi sendo substituída por uma medicina empírico-racional, não védica, que passou a ser conhecida como Ayurveda ou a ciência da vida. Esta mudança que teve como combustível,  segundo Zysk e Ramachandra Rao,as tradições não védicas do Budismo, Tantrismo e dos ascetas errantes Sramanas, além do possível contato com outras tradições como a alquimia chinesa, não está totalmente elucidada pois faltam referências na literatura indiana antiga sobre esta tradição intermediária entre os Vedas e o Ayurveda.

Nos parece que as tradições chinesa e indiana sofreram transformações muito semelhantes no primeiro milênio antes da nossa era, é possível que durante este período e principalmente a partir do século III A C, o intercâmbio proporcionado pelas trocas comerciais e pela expansão do budismo na Ásia central a partir do sub-continente indiano tenha sido um estímulo as novas idéias e transformações do pensamento médico de ambas as civilizações.   

A nossa hipótese é que os indianos desenvolveram em uma época anterior ao século II A.C., um sistema primitivo de acupuntura baseado na teoria dos marmas através da experimentação, relacionado a teoria da circulação do Prana nos condutos, formando os pré-requisitos que Unschuld colocou para uma prática ser chamada de acupuntura: puncionar as agulhas em pontos que terão influência na circulação de Prana com objetivo terapêutico. Esta acupuntura indiana teria sido levada a China provavelmente por volta do século III ou II AC, junto com o Budismo, e teria provocado todo a condição para o desenvolvimento da acupuntura chinesa a partir da dinastia Han. Associado ao uso das agulhas a teoria do Prana e dos marmas teria sido levada para a China e lá se desenvolvido. O conceito de Prana teria sido importante para o desenvolvimento do paradigma do Qi. Já os pontos marmas e os nadis seriam as influências do “elo perdido” que teriam levado a formação dos acupontos e dos meridianos chineses a partir do século II A.C.

Esta é apenas uma  hipótese que necessita de maior investigação através de outras fontes e referências históricas. Como disse Unschuld:

        “A origem da acupuntura na China não está clara. Nenhuma fonte chinesa conhecida, anterior ao Shih-chi (90 A C) contém qualquer referência a técnica.” ( Unschuld, 1985: 94)

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

O PARADIGMA DO QI: UM CONCEITO ALÉM DA ENERGIA VITAL

O paradigma do Qi é inseparável da medicina de correspondência sistemática  mas muitas vezes é equivocadamente interpretado de forma limitada por autores ocidentais que tentam utilizar conceitos cartesianos  para definir o Qi. O conceito do Qi chamou a atenção de filósofos chineses de todas as épocas até os tempos modernos.

O Concise English-Chinese Chinese English Dictionary traduz a palavra Qi como ar ou ar fresco já o Pocket Chinese English Dictionary afirma que Qi é ar, vapor, gás, respiração ou influência. Apesar disto muitos autores ocidentais traduzem a palavra como energia que  em mandarim é “huoli” .(Cowie and Evison, 1986: 194). Na verdade o ideograma chinês consiste de 2 partes: vapor subindo e arroz. Unschuld acrescenta:               

“O caractere Qi consiste de dois segmentos distintos: um ideograma indicando “vapor subindo” que é colocado sobre o ideograma do arroz ou painço. Logo o caractere inteiro deve ser lido como o vapor subindo do arroz ou painço… Uma leitura mais genérica seria “vapores subindo do alimento” seria uma Versão alternativa do caractere, citada pelo dicionário etimológico Shuo-Wen do ano 100 D C …. Por tanto eu traduzi como “a influência mais refinada da matéria” ou simplesmente “influência”, com uma conotação material ou substancial em mente. Este pode não ser a interpretação ideal mas a escolha deste termo e a argumentação no qual ele é baseado deve demonstrar que a tradução de Qi, por alguns autores ocidentais e asiáticos, como energia representa um erro de concepção que não é apoiado pelas fontes chinesas antigas” ( Unschuld, 1985: 72)

O termo paradigma é adequado porque  o conceito de Qi está mais próximo de ser um modelo do que de ser uma entidade estável. Exatamente por isto que a tentativa de vários autores, ocidentais e orientais, de traduzir a palavra acaba limitando o modelo e sendo um equívoco, pois não existe uma palavra em qualquer língua ocidental que exprima de forma adequadamente o conceito de Qi dentro do pensamento chinês. Interessante observarmos a definição de Qi de Yin Hui He e Zhang Bai Ne:

“O Qi é a substância da matéria que está em movimento. Ela é tão fina, que não há nada no seu interior, e tão grande que não há nada no seu exterior. Tudo que é matéria é resultado do Qi em movimento. Sobre isto no “Huang Ti Nei Ching  Su Wen” encontramos: “Na origem do que é o céu está o Qi do céu. Na origem do que é a terra está o Qi da terra. O Qi do céu e da terra, juntos, se dividem nas seis estações e formam todas as coisas”. Em todas as coisas, neste texto, sem dúvida está incluso o homem. No Su Wen , Da Formação do Precioso da Vida encontramos: “O homem adquire a sua forma na terra. O destino está no céu. O Qi combinado do céu e da terra possibilita as atividades vitais do homem”( He e Ne,1999:5)

Com isto podemos ver que o paradigma do Qi é extremamente complexo e a melhor forma de abordarmos esta complexidade é entendermos o modelo sem tentar traduzi-lo para uma palavra, em nossa língua que, necessariamente, iria limitar o conceito. O professor Cheng Xin Nong, considerado um dos maiores acupunturistas do século XX afirma:

“De acordo com o pensamento chinês antigo, o Qi era a substância fundamental construtora do universo, e todos fenômenos são produzidos pelas mudanças e movimentos do Qi. Este ponto de vista influenciou, marcadamente, a teoria da Medicina Tradicional Chinesa. Falando de uma forma geral, a palavra Qi dentro da Medicina Tradicional Chinesa refere ao mesmo tempo as substâncias essenciais do corpo humano que mantém suas atividades vitais e as atividades funcionais dos tecidos e órgãos Zang Fu. As substâncias essenciais são a fundação das atividades funcionais. Neste sentido o Qi é muito rarefeito para ser visto e sua existência é manifestada nas funções dos órgãos Zang Fu. Todas as atividades vitais do corpo humano são explicadas pelas mudanças e movimentos do Qi. (Nong, 1997:46)