Posts

HUANG TI NEI CHING: O PRIMEIRO TEXTO SOBRE ACUPUNTURA

 O Huang Ti Nei Ching ou o Classico de Medicina Interna do Imperador Amarelo é uma compilação, concluída provavelmente entre o século II e I A C, feita através de um suposto dialogo entre o lendário Imperador Amarelo ( 2698 a 2598 A C ) e seu ministro Qi Bo. O livro é dividido em duas partes: O Su Wen e o Ling Shu. Birch e Felt afirmam:

“ Há duas seções cada uma composta de múltiplos livros: o Su Wen ou “Questões Fundamentais” e o Ling Shu ou “Eixo/Pivo Espiritual”. No primeiro livro a conversa elucida alguns pontos sobre a teoria médica. O outro livro é essencialmente um manual de acupuntura. Tradicionalmente a data atribuída a este livro é o período entre os anos 2698 a 2599 A C, período também atribuído ao Imperador Amarelo, mas os estudiosos do assunto concordam atualmente que o Nei Ching foi concluído provavelmente entre o século II e o século I A C.” (Birch e Felt, 2002:19)

    O “Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo” na verdade é uma compilação do conhecimento médico desenvolvido na China, por vários autores, até o século I A C.A versão do tratado que chegou aos nossos dias foi escrita por Wang Ping no século VIII da nossa era. No prefácio do Nei Ching, Wang Ping escreve:

“ Qualquer um que deseje subir a montanha Tai não pode faze-lo sem uma estrada; qualquer um que deseje viajar ate o Japão não pode chegar lá sem um barco. Então eu investiguei, cuidadosamente, os textos originais  e visitei extensivamente as pessoas que podiam me ajudar. Após doze anos de estudo, agora eu finalmente entendi os princípios. Eu investiguei os pontos corretos e os pontos errados e o resultado satisfaz o meu antigo desejo. Eu recebi o segredo original, as edições escondidas do mestre mais importante, sua excelência Zhang Zhong Jin na casa de meu professor Guo Zi Zhai, a escrita neste texto é muito clara, os princípios e a razão do seu conteúdo são muito completos; E ao utilizá-lo com o propósito de interpretação, muitos pontos duvidosos desapareceram como o gelo derretido. Como eu tenho medo que estes textos possam desaparecer em minhas mãos e como conseqüência o material de ensino irá desaparecer, eu escrevi um comentário com o objetivo de perpetua-lo eternamente. Eu combinei isto com o texto em minhas posses em um livro de 81 capitulos e 24 rolos. A minha intenção é investigar a calda para entender a cabeça, investigar os comentários para entender o clássico, desenvolver o conhecimento médico para os homens jovens e espalhar largamente os princípios mais elevados.”  ( Wang Ping, século VIII: 5)

           

     Este comentário de Wang Ping, do século VIII da nossa era, demonstra a importância do Huang Ti Nei Ching dentro da história da Medicina Chinesa, com certeza é um texto que mostra a evolução do pensamento médico na China desde Ma Wan Tui, manuscrito mais antigo que não cita a acupuntura nem os acupontos. Outra interessante observação de Wang Ping foi sobre Zhang Zhong Jin, médico do final da dinastia Han, que escreveu dois trabalhos no século II da nossa era, aqui ele é denominado ‘o mestre mais importante sua excelência Zhang Zhong Jin.’O que confirma a sua grande fama posterior a dinastia Han. Nas palavras de Birch e Felt podemos compreender a importância do Huang Ti Nei Ching dentro da evolução dos conceitos da  medicina mágico-demonologica para a medicina de correspondência sistemática:

“A contribuição dada pelo texto e seu lugar na historia são claras: não pode ser nada menos que a gênese da medicina na China, mesmo que houvessem textos e fatos mais importantes, que nunca saberemos. Simboliza o momento em que as idéias essenciais sobre doença e tratamento alcançam a maturidade. A doença já não significava mais uma das muitas  catástrofes para as quais o ser humano buscava o socorro sobrenatural. A medicina se tornara um esforço humano dissociado da religião. O texto não apenas congregou em uma única fonte os aspectos mais fundamentais da medicina de correspondência sistemática, como também chamou a atenção para a necessidade de ter tratamentos distintos para sintomas individuais, idéia que permanece ate o presente. Como pedras não lapidadas, as idéias possuem bordas ásperas e ainda precisam ser polidas e apresentadas de forma mais elegante. Contudo os 162 artigos do Nei Ching mostram não apenas a absorção e extensão da teoria do Yin-Yang e a incorporação dos conceito relativamente mais recente dos cinco elementos, mas também focaliza os sintomas individuais como sendo somáticos em vez de serem efeitos sobrenaturais. Pela importância desta obra, o Huang Ti Nei Ching, não é rigorosamente estruturado nem sistemático. O livro fica mais bem compreendido como sendo a primeira mais antiga tentativa de reunir a arte da medicina a partir das várias escolas de pensamento médico que sobreviveram ate o período da dinastia Han. Por tanto o Nei Ching nos permite dar uma olhada nas bases da Medicina Tradicional Chinesa em relação a anatomia, fisiologia e as raízes das teorias da patologia e seu tratamento. O livro é uma janela que se abre para a medicina de correspondência sistemática da forma como esta amadureceu; um período de transição em que a acupuntura havia se tornado a terapia mais importante e os conceitos da correspondência sistemática haviam assumido o papel principal. No entanto nem as técnicas nem as bases do conceito haviam alcançado a elaboração final.”(Birch e Frelt, 2002: 19)

           O Nei Ching descreve os 12 meridianos principais bilateralmente e 295 acupontos. Estes canais conduzem o Qi, substancia que é descrita em parte como um produto do corpo, parte como produto do ambiente. Os meridianos ou Jing relacionam-se com os 11 orgãos internos: os cinco zang eram o coração, o fígado, o baço, os pulmões e os rins e os seis fu eram vesícula biliar, o estomago, o intestino grosso, o intestino delgado, a bexiga e o triplo aquecedor uma entidade não física ligada a uma grande variedade de funções corporais. A principal forma de diagnostico proposta era o exame do pulso modernamente denominado  de “pulsologia chinesa”. Ilza Veith no seu estudo do Nei Ching comenta:

 

“ O principal meio de diagnostico empregado no Nei Ching é o exame do pulso. Todos os outros métodos de determinar as doenças são somente subsidiários a palpação e utilizados principalmente em conexão com ela. A teoria do pulso é baseado sobre os vários estágios de interação entre o Yin-Yang e sobre as crasias e discrasias dos cinco elementos. O correto equilíbrio do Yin-Yang e a mistura harmoniosa dos elementos leva a saúde; a falta de equilíbrio e a desarmonia causa doença. O sistema de palpação proposto pelo Nei Ching, acreditava-se ser eficaz no diagnóstico da natureza e localização de qualquer tipo de doença. A base da sua prática era a crença que o pulso consistia na verdade de seis pulsos, três conjuntos de pulsos em cada mão, cada um conectado com uma parte do corpo em particular, e capaz de registrar a menor alteração patológica no corpo.” (Veith, 1972: 42)

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

A TRADIÇÃO CHINESA

  CAPITULO I : A   TRADIÇÃO   CHINESA

A  história da medicina chinesa começa em tempos pré-históricos com o mito: a lenda do Imperador Amarelo, Huang Ti, que reinava na região central da China ( Hoizey ; A History of Chinese Medicine) e o seu rival o Imperador do Fogo que comandava as terras ao sul da China. Conta a lenda que o Imperador do Fogo tinha o poder de, ao provar uma planta, determinar a natureza desta planta e também é creditado a ele o ensino do cultivo dos  cereais , de onde vem o seu titulo de fazendeiro divino, Shen Nung.

Shen Nung e Huang Ti são personagens lendários da Medicina Chinesa e ambos deram seus nomes a dois grandes clássicos : o Huang Ti Nei Ching ( O Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo) e o Shen Nung Pen-Tsao Ching ( O Clássico da Medicina Herbácea ).

A   DINASTIA   ZHOU

A dinastia Zhou é dividida em: Western Zhou do XI  século A.C. ao ano 771 A.C. e a Eastern Zhou que vai de 770 A .C. a 221 A .C..( A Concise History of China , Bozan, Xunzheng e Hua). A dinastia Zhou, como muitas que a sucederam, estabeleceu-se por meio da conquista sobre a dinastia anterior os Shang ( 1523 a 1027 A.C. ) esta era foi considerada a idade clássica do bronze  na China ( Entendendo a Acupuntura, Birch e Felt).

 A familia Zhou conseguiu consolidar o seu poder sobre os Shang, dinastia anterior que reinou do século XVII A.C.. ao século XI  A. C., com ajuda de nobres dissidentes dos Shang. Esta conquista dos Zhou  teve suas raízes na falha da dinastia anterior em guardar seus territórios adequadamente e também na superioridade agrícola dos Zhou sobre os Shang.

[Continue lendo, clique no botão abaixo]

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

 

 

 

A ESCOLA DO YIN–YANG

 A teoria do Yin-Yang é tão antiga que muitas vezes confunde-se com a história da própria China. É difícil precisar exatamente quando surgiu pela primeira vez este pensamento, porém  Marcel Granet em “O Pensamento Chinês” relaciona as primeiras referências ao Yin-Yang  ao I-Ching:

“Não surpreende, portanto, constatar (levemos em conta aqui os acasos que regeram a conservação dos documentos) que as mais antigas exposições  conhecidas sobre o Yin-Yang estão contidas no Hi Zi, pequeno tratado anexado ao I Ching (o único manual de adivinhação que não se perdeu). Tampouco surpreende que o autor do Hi Zi fale do Yin-Yang sem pensar em dar uma definição deles. Na verdade basta lê-lo sem preconceitos para perceber que ele procede por alusão a idéias conhecidas. Veremos, inclusive, que o único aforismo contendo as palavras Yin e Yang em que podemos adivinhar a ideia que ele fazia destes símbolos aparece como uma fórmula pronta, um verdadeiro adágio: aliás, é nesse fato que reside a única possibilidade que nos é dada de conseguir interpretar este aforismo.

“Uma (vez) Yin, uma (vez) Yang ( yi Yin yi Yang), nisso está o Tao”, escreve o Hi Zi. Todo este adágio tem que ser adivinhado. A tradução mais literal corre o risco de falsear-lhe o sentido. A que acabo de fornecer já é tendenciosa sugere a interpretação: “um tempo de Yin, um tempo de Yang…” Sem dúvida existe a possibilidade de que o autor preocupado com a adivinhação encare as coisas do ponto de vista do tempo; entretanto, tomada em si, a fórmula poderia igualmente ler-se: “um ( lado) Yin, um (lado) Yang…” (Granet, 1997: 85)

O I Ching, livro das mutações, seria a referência mais antiga a teoria do Yin-Yang mas quando surgiu este antigo “oráculo chinês”, que foi dividido em 64 hexagramas  Richard Wihelm afirma:

“Segundo a tradição geralmente aceita, sobre a qual não temos motivo para levantar suspeitas, a atual compilação dos sessenta e quatro hexagramas teve sua origem com o Rei Wen, antecessor da dinastia Zhou. Diz-se que ele acrescentou breves julgamentos aos hexagramas durante o período que estava aprisionado por ordem do tirano Chou Hsin. O texto relativo as linhas foi redigido por seu filho, o Duque de Chou. Sob esta forma, com o título de “As Mutações de Chou”( Chou I ) foi usado como oráculo durante o período da dinastia Zhou como demonstram vários antigos registros históricos.” (Wilhem, 1983:11)

Apesar de Wilhelm colocar o I-Ching na época anterior a dinastia Zhou, Alaíde Mutzenbecher em seu trabalho sobre o I-Ching vai além:

“Composto apenas de duas forças, opostas e complementares, reconhecidas como primordiais desde o assentamento dos primeiros grupos tribais as margens do Rio Amarelo, no alvorecer da civilização chinesa, o fluxo do Yin-Yang admiravelmente sintetizado nas seis linhas ou etapas de cada hexagrama se constituía então dos traços impressos nas carapaças das tartarugas ou nos ossos dos animais. Impossível iniciar uma data que os chineses iniciaram a captação desta dinâmica energética. O par de forças inaugurais nas suas concatenadas variações, forma uma totalidade de possibilidades ( 8 x 8 ) resultando nos 64 hexagramas. Configura as energias vigentes entre céu e terra, codificadas apenas por linhas, em que as inteiras são denominadas Yang ______ e as partidas Yin ____ bem como todas as composições delas decorrentes. Tudo se resume em última instância, a malha de conexões dos pólos positivo e negativo, em todas as suas variações possíveis. Este foi também o texto fundador das ciências e das artes chinesas, incluindo as percepções das vibrações do corpo humano, ressaltadas na sua medicina, e dos espaços e construções habitados, enfatizadas no Feng Shui. Este mesmo fluxo energético constitui as bases da caligrafia a da pintura chinesa, e de todas as artes marciais do oriente. As implicações das mútuas repercussões dos pólos positivo Yang e negativo Yin constam das ciências mais modernas, pois se evidenciam na dinâmica da eletricidade e dos computadores, para citar apenas dois exemplos.“ (Mutzenbecher, 2002: 12 e 13)

Originalmente os ideogramas que representavam o Yin e o Yang significavam o lado escuro e o lado claro de uma montanha respectivamente. No Shih-Ching, uma coleção de canções populares do primeiro milênio a.C. faz a seguinte associação:

“O Yin está associado aqui com o frio, nublado, chuva, feminino, dentro e escuridão, enquanto o Yang simboliza uma linha de correspondência associada com: o brilho do sol, calor, primavera, verão e masculino.” (Unshuld,1985:55)

Na doutrina do Yin-Yang os termos Yin e Yang não apresentam nenhum significado específico, eles funcionam como símbolos utilizados para caracterizar duas linhas de correspondência. No Zouzhuan, comentário de Zou, uma crônica do período Zhou atribuída A Yi He, que teria vivido por volta do ano 540 A C observamos a aplicação da teoria do Yin-Yang a medicina:

“As seis influências são yin, yang, o vento, a chuva, a escuridão e a luz… um excesso de yin causa calafrios; um excesso de yang causa febre, um excesso de vento causa enfermidades nos membros; um excesso de chuva causa enfermidade no estômago; um excesso de escuridão afeta a mente; um excesso de luz afeta os sentimentos.”(Hoize e Hoize, 1993: 88)

Nesta afirmação de Yi He, médico durante a dinastia Zhou, observamos a importante utilização da medicina de correspondência sistemática aplicada as mudanças climáticas e a teoria do Yin-Yang. Yin Hui He e Zhang Bai Ne resumem a lei da oposição e restrição do Yin-Yang no seguinte parágrafo:

“A teoria do Yin e do Yang considera que qualquer objeto ou qualquer manifestação do mundo material está incluso no antagonismo complementar dos dois aspectos Yin e Yang, como o em cima e o embaixo, a direita e a esquerda, o céu e a terra,o movimento e o repouso, a saída e a entrada, o dia e a noite, o claro e o escuro, o frio e o quente, a água e o fogo etc. O Yin e o Yang enquanto antagônicos formam uma unidade que é por sua vez resultado deste antagonismo. Em outras palavras o antagonismo entre os dois em um aspecto de oposição e a unidade dos dois tem aspecto da complementaridade. Se não há antagonismo, não há unidade. Se não há oposição, também não há complementaridade. A principal manifestação característica do antagonismo complementar entre Yin e Yang é a mútua restrição. O resultado é que o Yin e o Yang alcançam a unidade no equilíbrio dinâmico denominado: o Yin floresce suavemente e o Yang estimula firmemente. Nas variações climáticas entre o morno, o calor, o fresco e o frio das quatro estações, o morno e o calor da primavera e do verão acontecem enquanto a energia Yang aumenta gradativamente, inibindo a energia fria e fresca do outono e inverno. O frio e fresco do outono e inverno acontecem enquanto a energia Yin aumenta gradativamente, inibindo a energia quente e morna da primavera e do verão. Isto é o resultado da mútua inibição e do equilíbrio dinâmico existente entre o Yin e o Yang da natureza.”  ( He e Ne, 1999: 19)

Esta colocação de Yin Hui He e Zhang Bai Ne resume a alternância e a complementaridade do Yin-Yang na natureza. Mas a medicina de correspondência sistemática utilizou, principalmente a partir do século V A C, a teoria do Yin-Yang aplicada as enfermidades. Com relação a aplicação do Yin-Yang a medicina Maciocia afirma:

“Poder-se-ia dizer que a Medicina Chinesa como um todo, sua fisiologia, patologia, diagnóstico, e tratamento, podem ser reduzidos a teoria básica e fundamental do Yin e do Yang. Todo processo fisiológico e todo sintoma ou sinal podem ser analisados sob a ótica da teoria do Yin-Yang. Cada parte do corpo humano apresenta um caráter predominantemente Yin ou Yang, muito importante na prática clínica. Deve-se enfatizar todavia que este caráter é somente relativo. Por exemplo, a área torácica é Yang em relação ao abdome (por ser mais alta), mas Yin em relação a cabeça.

Os caracteres Yin e Yang das estruturas corporais  são :                

Yang                                                       Yin

Superior                                                  Inferior

Exterior                                                   Interior

Superfície póstero-lateral            Superfície antero-medial

Costas                                                       Frente

Função                                                      Estrutura

Cabeça                                                     Corpo

Exterior (pele-músculos)               Interior ( órgãos )

Acima da cintura                                Abaixo da cintura

Função dos órgãos                             Estrutura dos órgãos

Qi                                                                 Sangue”

(Maciocia, 1996:9) 

 

A medicina de correspondência sistemática apresenta além da teoria do Yin-Yang mais três conceitos que são fundamentais dentro do seu desenvolvimento como uma racionalidade médica: As 5 fases , também chamadas de 5 elementos ou movimentos ( wu xing ), a teoria do Qi e os meridianos chineses ( jing luo ). Iremos analisar cada uma destas teorias que compõem a racionalidade médica chinesa nos primórdios de seu desenvolvimento histórico.

 

A DINASTIA QIN

A   DINASTIA  QIN: O IMPERADOR SANGUINÁRIO

 

    A dinastia Zhou que reinou de 1027 a 221 A C foi substituída pela dinastia Qin que foi caracterizada pulo uso da força e da violência durante o período de 221 a 206 A C. No início o futuro imperador dos Qin, Shi Huang Di, conquistou vários estados, Han, Zhao, Wei, Chu, Yan, e Qi e promoveu a unificação da China pela primeira vez em sua história. O governante dos Qin, então, substituiu a elite feudal e apropriou-se de suas terras declarando-se imperador da China.

     O poeta Li Bai, do século VIII da nossa era, descreveu em um verso memorável as ações do primeiro Imperador que unificou a China em 221 A C:

 

        “ The Qin ruler`s reach extend to the six directions.

           A fierce overlord with the look of a tiger,

           With his brandished sword he cleaves asunder

                the floating clouds.

           Princes come one after the other to the west

           To bow before him…( Li Bai em Hoize e Hoize, 1993:34)

 

     O soberano fez profundas modificações na política do estado. Shi Huang Ti era guiado pela filosofia legalista cujo o objetivo era a aquisição de riqueza e poder. Nesta época o poder e o bem, a riqueza e a justiça eram equiparados. Birch e Felt afirmam:

 

“O antigo código de normas centralizado nos antepassados do período feudal foi irrevogavelmente substituído pelo único objetivo de quem ganha leva tudo.” (Birch e Felt, 2002: 14)

 

    Com o objetivo de consolidar o seu novo regime, Shi Huang Di, confiscou e destruiu  todas as armas do povo. Além disto baniu dos seus domínios nobres e ricos e ordenou que 120.000 famílias se mudassem para a nova capital Xianyan, acabando com a longa tradição da China de pequenas cidades auto-suficientes.

     Na sua ganância pelo poder, Shi Huang Ti, realizou em 213 A C a queima pública de toda a literatura, com exceção dos livros de medicina, farmacologia, oráculos, agricultura e silvicultura. Cerca de 460 eruditos foram queimados, vivos em grupo, como aviso aos outros. O primeiro imperador e seu sucessor foram verdadeiros ditadores que governaram a China com mão de ferro. Bozan, Xunzheng e Hua em “ A Concise History of China” afirmam:

“Eles forçaram 300.000 homens a construir a Grande Muralha e enviaram 500.000 para guarnecer Lingnan (Guangdong). Um adicional de 700.000 homens foram utilizados para construir palácios e um igual número para construir o mausoléu de Shi Huang Di e inumeráveis mais foram recrutados para construir estradas. Como resultado, os impostos e os trabalhos forçados tornaram-se tão onerosos que os camponeses não tinham tempo para cultivar os seus próprios campos e suas mulheres não tinham tempo para fiar e tecer. Foi literalmente impossível para os camponeses existir  sob este fardo. O inevitável aconteceu. Em 209 A C os camponeses liderados por Chen Sheng e Wu Guang levantaram-se em revolta. Armados apenas com enxadas e porretes eles destruíram o domínio da dinastia Qin.” ( Bozan, 1986:21)                        

     Um evento importante, durante a dinastia Qin, sugere a possibilidade de contato entre a China e a Índia antes da dinastia Han. Nas palavras de Svoboda e Lade:

“ Em algum ponto entre os séculos III ou IV A C, ocorreu um fato histórico importante que confirma sem sombra de dúvida que essas duas sociedades estiveram realmente em contato uma com a outra. Nessa época a Índia já possuía uma cultura literária altamente desenvolvida, que havia produzido montanhas de textos sobre tópicos como religião, astrologia e medicina. O preeminente texto ayurvédico Charaka Samhita já tinha muitos séculos de existência, enquanto o importantíssimo Clássico Interno do Imperador Amarelo só então era compilado na China. Durante este período começaram a circular na China relatos sobre o soma, planta psicotrópica associada a experiências místicas que ocupara lugar de destaque na religião indiana primitiva. No contexto indiano, sabe-se que o uso do soma desempenhou papel central no Rig Veda, uma escritura que apareceu antes do ano 1000 A C.”  ( Svoboda e Lade, 1995: 80)

  O imperador Shi Huang Di estava assustado com a ideia da morte. De acordo com o texto histórico Shi Ji, do primeiro século A C, ele buscou o elixir dos imortais e para isso ele enviou o Shaman  Su Fu para encontrar os imortais. No Shi Ji encontramos:

“Su Fu foi enviado junto com as filhas de Qin. Quem pode dizer quando seu barco retornara…” ( Hoizey e Hoizey, 1993:36)

    O primeiro imperador estava obcecado com a idéia da imortalidade, e  enviou Su fu para encontrar o soma,  planta sagrada dos Vedas Hindus, que teria propriedades mágicas. No seu trabalho “Tao e Dharma, Chinese Medicine and Ayurveda” Svoboda e Lade afirmam:

“Divulgou-se na China que o soma tinha o poder de conferir imortalidade, e os relatos persistentes e sedutores acabaram levando o imperador Qin Shi (que reinou entre 221 e 207 A C), primeiro soberano de uma China unificada, a ordenar a procura desta planta maravilhosa. No final, o próprio imperador foi as montanhas ocidentais em uma busca infrutífera. Apesar desta fracasso, o imperador se recusou a desistir, e aparentemente deu permissão e apoio a um homem peculiar chamado Su Fu, que foi enviado numa viagem marítima com um grande contingente de crianças consagradas e a missão de voltar com a substância divina A primeira jornada não obteve sucesso, mas Su Fu retornou a China, foi reequipado e enviado novamente, porém nada mais se sabe a respeito dessa segunda missão” (Svoboda e Lade, 1995: 80)

                 O período curto da dinastia Qin (221 a 206 A C), formulou importantes modificações na estrutura sócio-econômica da China como a padronização da moeda, pesos e medidas, da escrita chinesa e imposição aos súditos da construção de um sistema de transportes. Inadvertidamente o ditador Shi Huang Di deixou um legado que permitiu  o desenvolvimento de um dos períodos mais reverenciados da história da China: A Dinastia Han, uma dinastia de mais de 400 anos com uma importância histórica fundamental para a nossa pesquisa pois foi quando surgiram os principais trabalhos da medicina de correspondência sistemática e da acupuntura.

A DINASTIA HAN: OS PRIMEIROS TEXTOS DE ACUPUNTURA

A dinastia Han teve início em 206 A C após a derrubada dos Qin pelos camponeses e prolongou-se até 220 da nossa era. O fundador da dinastia Han, Gao Zu, não esqueceu a sua origem humilde ao formar um governo considerado um dos mais responsáveis da história chinesa; ele moderou a severidade do governo dos Qin, diminuiu os impostos e atenuou o controle feito pelo governo sem deixar de manter sua organização.

Os chineses apontam esta era como sendo um período de extrema realização cultural digna de exaltação. Durante este período, a cultura chinesa, incluindo a medicina cresceram com uma velocidade espantosa, foram os quatro séculos de maior importância para a Medicina Chinesa. Birch e Felt no interessante trabalho “Entendendo a Acupuntura” colocam as principais razões que levaram a este período de mudanças:

“A forma de governo severa dos Qin fizera desaparecer as instituições e as forças sociais que poderiam se opor as mudanças, purificando e tornando o solo fértil para a germinação e frutificação das inovações, para as explorações e invenções. Não foram somente as barreiras culturais que foram eliminadas: a sociedade e a economia chinesas estavam geofisicamente mais acessíveis entre si. Estradas e canais ligavam antigas cidades amplamente autônomas e todas as classes da sociedade beneficiadas pela riqueza crescente que tinha origem no comércio e pela independência econômica estabelecida. Por muito pouco a corte e os ricos conseguiam obter mercadorias estrangeiras. Os lordes feudais não mais controlavam a vida social e religiosa e surgiu uma classe educada que sobrevivia independente  da riqueza ou de patronatos.”(Birch e Felt, 2002: 15)

 

Um possível impulso para este crescimento cultural teria sido o contato com regiões     ao ocidente da China. O intercâmbio de idéias e teorias poderia ter impulsionado o desenvolvimento da Medicina Chinesa. Sabemos que foi durante a dinastia Han que o budismo foi introduzido na China proveniente da Índia junto com o budismo vieram teorias da Medicina praticada na Índia naquela época.

No período do reinado do imperador Wu Di durante a chamada “Western Han Dynasty” ( 206 A C a 24 D C) a China estava em guerra contra reinos do nordeste comandados por Xuong Nu. Em 138 A C o imperador Wu Di enviou Zhang Qian para regiões ao ocidente que descobriu muitos países  ricos no distante ocidente. Bozan, Xunzheng e Hua afirmam:

“ A história começa com a tomada por Xuong Nu de vários pequenos estados nas regiões ocidentais. Em 138 A C Wu Di  enviou Zhang Qian ( ?-114 A C) para estas regiões. Zhang Qian descobriu que haviam muitos países prósperos e ricos no distante ocidente. Em 121 A C as tropas de “Western Han” abriram a rota através do corredor de Ganzu para as regiões ocidentais. Mais tarde com a cooperação do povo de Wu Sun, as tropas chinesas… conquistaram vários estados nas regiões ocidentais…Deste momento em diante comerciantes da China e Ásia central enviaram mercadorias chinesas, particularmente seda, para o ocidente distante:…Pérsia, Índia  e cidades do Império Romano. Destes paises eles traziam produtos para os governantes e pessoas da região central…” (Bozan, 86:25)

 

     Esta afirmação é ratificada por Svoboda e Lade:

“Historicamente a era da dinastia Han foi um período em que a atenção dos chineses se voltou para o exterior. Por volta de 138 A C, a Estrada da Seda para oeste e a Estrada da Birmânia (115 A C) para o sul havia aberto o comércio e o intercâmbio de idéias e tecnologias com terras estrangeiras. Na fronteira ocidental da China, além das montanhas Kun Lun, um ramo da Estrada da Seda rumava ao sul e conduzia a Índia. A China também embarcou em grandes navegações exploratórias para abrir rotas marítimas ao sul e ao leste. Ao final do século II A C, barcos da China Imperial haviam alcançado costas distantes do Oceano Índico, sendo referido como o litoral do atual Sri Lanka, na época em que a civilização e a religião indianas estavam se espalhando rapidamente.” ( Svoboda e Lade, 1995: 82)

A dinastia Han foi o período em que a medicina de correspondência sistemática atingiu a sua maioridade. Durante este período de quatro séculos, de II AC a II DC, foram escritos os principais trabalhos da Medicina Chinesa que iriam, sem sombra de dúvidas, influenciar o pensamento médico na China pelos próximos 2000 anos. Sobre este período de desenvolvimento do pensamento médico na China Birch e Felt colocam:

“ Não permanece claro como todos os aspectos da medicina de correspondência sistemática surgiram, também, não se deve deduzir pela nossa apresentação cronológica que este processo tenha ocorrido de forma equilibrada e ordenada. Por exemplo, enquanto o crédito da origem do conceito dos cinco elementos é dado a Zou Yan ( 350 a 270 A C), a concepção grega dos quatro elementos e a série indiana dos cinco elementos são produtos do ano 600 A C aproximadamente, e poderiam ser com justiça, os precursores da teoria chinesa dos cinco elementos.” (Birch e Felt, 2002: 16)

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

MA WANG DUI: O TEXTO MAIS ANTIGO SOBRE A MEDICINA CHINESA

     Em 1973 vários textos médicos foram encontrados nos túmulos de Ma Wang Dui de 168 A C ao sul da China no estado de Hunan, na capital Changsha, onde hoje encontra-se atualmente o Museu Provincial de Hunan. Estes antigos textos do século II A C, são anteriores ao Shih-chi de Ssu ma Ch`ien  e ao Huang Ti Nei Ching. Nas palavras de Unschuld:

“ Os textos de Ma Wang Dui são impressionantes devido ao amplo número de conceitos e técnicas registradas e recomendadas, incluindo: moxa-cauterização, feitiços orais, rituais mágicos, ginásticas, práticas sexuais, drogas, massagem, ventosas, banhos e fumigações baseados no paradigma da magia e correspondência sistemática, assim como conceitos demonológicos, presumivelmente, de experiências diretas. O uso de pedras pontudas é recomendado várias vezes para abrir abscessos e uma vez para aplicar pressão quente em hemorróidas. Moxabustão, isto é, a queima da planta Artemísia Vulgaris, sobre a pele é o único estímulo recomendado para estimular o conteúdo dos onze vasos. Nenhum ponto específico é sugerido para a aplicação deste tratamento…” (Unschuld, 1985: 93)

 

Um fato notável, de extrema importância, é a ausência de qualquer referência a acupuntura ou a descrição de pontos de acupuntura. Podemos concluir que a acupuntura, dentro da medicina de correspondência sistemática era desconhecida na China no século

III A C. É interessante notar que a China do início da dinastia Han, ou seja, século II A C, estava seguindo um curso semelhante ao da Grécia  três séculos antes. Os princípios da patologia, anatomia, e fisiologia estavam sendo descritas como disciplinas humanas distintas.

O professor e sinólogo Paul Uncshuld comenta:

“O que se distingue nas filosofias grega e chinesa emergentes na metade do último milênio A C , é a tentativa de explicar os fenômenos do mundo perceptível como ocorrências naturais, sem referências a forças misteriosas como deuses e antepassados.” (Unschuld, 1985: 55)

 Apesar de Unshuld colocar que não existe nenhuma fonte conhecida da acupuntura  na China anterior ao Shih Chi do ano 90 A C; um autor do século III A C, Han Fei, conta a história de um famoso medico Qin YueRen ( 407 a 310 A C), que ficou conhecido como Bian Que:

…”O Rei Huan notou que Bian Que evitou a sua presença, então o Rei enviou um servo para saber porque Bian Que tinha evitado a sua presença. Bian Que respondeu: Quando uma doença acomete a superficie do corpo uma loção ou uma compressa quente pode curá-la, quando uma doença afeta os músculos o uso de agulhas pode curá-la, quando uma doença afeta o intestino e o estômago uma decocção pode curá-la, mas quando uma doença ataca os ossos não há nada mais a ser feito mas deixar as coisas ao seu próprio destino. Desde que a doença do Rei atingiu os ossos eu não vejo nenhuma razão para recomendar que ele se cuide…” ( Hoizey e Hoizey, 1993:30)

               

 Nos “Registros do Grande Historiador”, Shih Chi de Ssu-ma Ch`ien de 90 A C, o mesmo Qin Yueren é classificado como um médico de grande reputação na sua época, século IV A C. Hoize e Hoize em seu trabalho“A History of Chinese Medicine” afirmam:  

“Na conclusão da biografia de Qin Yueren feita por Ssu-ma Ch`ien, o historiador enfatiza a reputação que Qin adquiriu nos campos da gineologia, pediatria, otorrinolaringologia, oftalmologia e mesmo psiquiatria. Qin afirma que um desequilíbrio do Yin-Yang era a principal causa das doenças, e seu método de diagnóstico, de acordo com Ssu-ma Ch`ien, contava com regras simples como: pegar o pulso, observar a compleição facial, ouvir as vibrações dos ruídos do corpo e questionar o paciente. Ele usava decocções e fomentações na cura dos pacientes assim como praticava acupuntura…”  ( Hoizey e Hoizey, 1993: 31)

Podemos observar que ambos os autores, Ssu-ma Ch`ien e Han Fei, afirmam que Qin Yeren utilizava a acupuntura em sua prática médica o que é negado por Unschuld ao colocar como a primeira referência a acupuntura a prática do médico Shun-yu I,descrita no Shi-chi, pelo próprio Ssu-ma Ch`ien. Neste antigo texto o médico Shun-yu I foi acusado de prática inadequada ao fazer uso da acupuntura e teve que defender-se:

“ Acupuntura é uma técnica que promove o movimento  do Qi através dos canais de transporte do corpo. Como tal está descrita pela primeira vez por Ssu-ma Ch`ien, no Shih-chi ( de 90 A C), através de um médico chamado Shun-Yu I. Este homem foi acusado de má prática, e pode-se inferir que a técnica que ele utilizou era desconhecida para aqueles que o acusaram e lhe pediram explicações. No curso de dois julgamentos, um em 167 A C e outro em 154 A C, Shun-yu I defendeu sua prática. Como sua biografia sugere, Shun-yu-I sabia sobre o fluxo de Qi no organismo, porém,o conceito de circulação não tinha surgido ainda. As agulhas de acupuntura, na opinião de Shun-yu I, eram adequadas para causar influências naquilo que tinha se movido, indevidamente, para cima no organismo descer novamente, e vice versa; para causar o fluxo para dentro e para fora do Qi; para afetar influências perversas, que entraram no organismo e reverter o movimento de influências contrárias ao seu próprio curso. Aparentemente, alguns pontos sobre a pele usados por Shun-yu I para inserir as agulhas ficam em reconhecidos canais de transporte, outros não.” (Unschuld, 1985: 92)

Segundo Unsculd esta seria a primeira vez na literatura que a acupuntura teria sido praticada de acordo com o pensamento da medicina de correspondência sistemática ou seja dentro do paradigma do Qi e da sua influência pelos acupontos. Provavelmente Unschuld não considerou a acupuntura de Qin Yeren como sendo uma prática dentro dos conceitos da medicina de correspondência sistemática apesar de anteceder em um período de  dois séculos a prática de Shun-yu I de acupuntura. Esta passagem histórica, de Qin Yeren também conhecido como Bian Que, é controversa pois não temos como explicar por que o Professor  Unschuld, considerado a maior autoridade em história da Medicina Chinesa, teria ignorado, nem mesmo comentado, nos seus trabalhos, a prática deste médico do século IV A C.         

Nos textos de Ma Wan Dui de 168 AC nós observamos onze meridianos, porém nenhuma referência a circulação do Qi, aos acupontos e a acupuntura. Então podemos inferir, pelos fatos históricos colocados por Unschuld, Hoize e Hoize, que existe um “elo perdido” na história da Medicina Chinesa na sua mudança de paradigma de uma medicina mágico-demonológica baseado no contato com o sobrenatural para a medicina de correspondência sistemática  com raízes na observação dos fenômenos naturais. As perguntas não respondidas são :

  1. Como surgiu a medicina de correspondências sistemática ?
  2. De onde veio a teoria do Qi e dos meridianos chineses?
  3. Como foi desenvolvida a acupuntura e os acupontos?

Estes questionamentos são fundamentais dentro desta pesquisa e podemos sugerir influências externas vindas de alguma cultura, talvez mais antiga e com os seus paradigmas já delimitados que tenham injetado novas idéias aos pensadores chineses. Novamente vamos buscar em Unschuld uma possível hipótese para responder estas questões:

“ Finalmente pode-se especular sobre um elemento estrangeiro o qual penetrou para fornecer o cataclismo para a fusão de todos estes elementos separados em frente a um fundo variado composto de ideais sócio-políticos, fatos sócio-econômicos e  raciocínio cosmológico. Liu Tun-yuan, o descobridor das esculturas da dinastia Han retratando Pien Ch`iao como um pássaro com cabeça humana, sugeriu que este pássaro poderia ter sido influenciado pelo mito do Gandharva indiano o qual de alguma maneira pode ter atingido a costa leste da China. Os Gandharvas, pássaros com cabeças do homens eram conhecidos na Índia desde os tempos védicos, eram tradicionalmente descritos como médicos habilidosos. Talvez  algum terapeuta adotou não apenas o disfarce de homem-pássaro  mas também uma técnica nova que veio com ele.” (Unschuld, 1985: 97)

Esta colocação de Unschuld é muito interessante pois nós sabemos que na segunda metade do primeiro milênio A C as idéias, filosofias e a prática médica na China estavam passando por um período de muitas transformações. Os escritos de Ma Wan Dui do século II AC, são um produto claro destas mudanças, pois, retratam um momento histórico em que tanto a medicina mágico-demonológica quanto os conceitos de correspondência sistemática estavam sendo utilizados pelos médicos e shamans. A possibilidade de uma influência externa no desenvolvimento do pensamento médico na China é uma hipótese que temos que considerar seriamente, visto que é fato histórico que as rotas comerciais com o ocidente, leia-se subcontinente indiano, foram abertas justamente neste momento de mudança, ou seja século II A C. Associado as trocas comerciais vêem as trocas de idéias e teorias que podem ter influenciado a construção do modelo da medicina de correspondência sistemática.

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

O BUDISMO: O TERCEIRO PILAR DO PENSAMENTO CHINES

A filosofia budista é o terceiro pilar do pensamento chinês, junto com o Taoismo e Confucionismo, que nasceu no século VI ou V AC na Índia com um homem conhecido como Siddharta Gautama. O Prof. Dr. Ricardo Gonçalves, do Departamento de Historia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo resume a vida de Buda:

 

“ Siddharta Gautama nasceu em data ignorada, provavelmente em meados do século VI A C, em Kapilavastu, no sopé do Himalaia, em território do atual Nepal. Era filho de Sudhodhana, nobre pertencente a assembléia que governava a pequena tribo dos saquias, tributária do vizinho reino de Kosala. Ele deveria herdar o cargo paterno, mas, ao completar 29 anos preocupado com problema do sofrimento humano e desejoso de encontrar um método para subjulgá-lo, abandonou a vida mundana e se tornou discípulo dos ascetas Alara Kalama e Uddaka Ramaputta, exercitando-se nas práticas das iogas preconizadas por estes mestres. Entretanto, tais práticas não o satisfizeram. Deixou então os mestres e praticou mortificações por seis anos. Ao cabo deste tempo foi levado a concluir que todos estes exercícios eram inúteis e imaginou então um novo método, passando a praticar meditação a sombra de uma arvore em Buddhagaya.Graças a esta meditação, logrou resolver todas as duvidas, realizando a experiência de iluminação ou satori, que consiste em obter o conhecimento correto de si mesmo e de todas as coisas. Procurando transmitir sua vivencia a outros, conseguiu reunir grande numero de simpatizantes e discípulos, antes de morrer com 80 anos.”(Gonçalves, 1992: 12)

 

Após a iluminação o Buda, o desperto ou iluminado, passou a pregar as “Quatro Nobres Verdades”. As eternas “Verdades” que são as concepções  centrais de seus ensinamentos:

 

                        “I -A Verdade de que toda a vida sensível envolve sofrimento.

                        II-A Verdade de que a causa dos repetidos renascimentos e sofrimentos

                            é a ignorância, associado ao desejo.

                       III-A Verdade que este processo de nascimento, morte e sofrimento pode

                             ser levado para um fim somente com a obtenção do Nirvana.

                      IV-A Verdade de que o Nirvana pode ser alcançado seguindo-se com per-

                            feição o Nobre Caminho Óctuplo que abrange Sila, Samadhi e Panna,

                            Isto é moralidade, meditação e compreensão intuitiva.

                       

A Quarta Nobre Verdade do Budismo é conhecida como Caminho Óctuplo, que se compõe do seguinte:       

                                                     

  1. Palavra Correta
  2. Ação correta
  3. Meio de Vida Correto
  4. Esforço (mental) Correto
  5. Atenção Correta
  6. Concentração Correta
  7. Pensamento Correto
  8. Compreensão Correta” (Silva, 1978: 12)

 

O pensamento de Buda foi bem acolhido na China durante a dinastia Han e influenciou as escolas de filosofia chinesa. Associado a filosofia de Buda chegou a China  antiga a medicina budista, que segundo a tradição teve como pioneiro o próprio medico de Buda:  Dr. Jivaka no século V A C. O professor Ricardo Gonçalves coloca:

O Budismo foi pregado pela primeira vez na China nas primeiras décadas do seculo I da era cristã, durante a Segunda Dinastia de Han. Cerca de dois séculos antes os chineses, tinham começado a controlar as rotas de comércio da Ásia Central, conhecida como Caminho da Seda. Foi por este caminho e pelas rotas de comércio marítimo que o Budismo entrou na China, trazido por monges e mercadores oriundos da Índia e de reinos da Ásia central convertidos a lei de Buda. Pelas mesmas rotas, entraram na China os textos Budistas indianos, que foram traduzidos para o chinês por uma brilhante plêiade de monges tradutores, indianos, iranianos e mesmo chineses, que faziam longas peregrinações a Índia em busca de textos para traduzir.”  ( Gonçalves, 1992: 23)

 

   A medicina budista afirma que existem quatro elementos que compõem o corpo humano. O Ratnakuta, traduzido para o chinês no segundo século da era cristã, afirma:   

 

“1- A terra abrange tudo que é sólido no corpo humano…

2- A água abrange tudo que é liquido no corpo humano…

3- O fogo abrange tudo que é quente no corpo humano…

4- O vento abrange tudo que é movimento no corpo humano”

(Unschuld,1985:141)

 

A doença surge quando um ou mais destes quatro elementos aumenta ou diminui excessivamente. Esta afirmação da medicina budista é idêntica a do Ayurveda, a clássica medicina Indiana, com a diferença que no Ayurveda existe um quinto elemento que é o espaço ou éter.

A estrutura filosófica da medicina budista sofreu nas mãos dos tradutores chineses. houve interpretações equivocadas e muito pouco da literatura encontrou identificação no acervo cultural chinês.O prof. Paul Unschuld coloca que há tantas obras chinesas que ainda não foram examinadas que não será surpresa se ainda ocorrer uma influencia budista.

        Hua to e Sun Si-miao ( 581 a 682D C) são citados como exemplos da influencia budista na Medicina Chinesa. Porem os esforços de Sun Si-miao em organizar a doutrina budista dos quatro elementos nas mesmas bases do paradigma do Qi, não foram suficientes para obter seguidores, talvez pelos erros matemáticos contidos na sua explicação. A falta de evolução e de seguidores nas técnicas de anestesia e cirurgia de Hua To ficaram sem explicação histórica. Uma possibilidade é que como sua história é muito semelhante a do médico indiano Jivaka, considerado o médico do próprio Buda, que Hua To seja uma fábula importada da Índia junto com o Budismo.

 

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

 

O FINAL DA DINASTIA HAN

O FINAL DA DINASTIA HAN: A MEDICINA INTERNA CHINESA

Zhang Zhong Jing viveu de 150 a 219 da nossa era e é descrito como o “sábio da medicina”. O médico nasceu no distrito de Nanyang, província de Henan, região central da China ao sul de Beijing. No ano de 198 escreveu o Shang Han Lun, o tratado sobre as doenças induzidas pelo frio, e um segundo trabalho mais tarde: o Jin Gui Yu Han Yao Lue ou  sumário dos elementos mais importantes do baú dourado e do recipiente de jade. Ambos os trabalhos fazem parte da assim chamada Medicina Interna Chinesa onde o ênfase está no uso das drogas, a maioria delas plantas medicinais, de acordo com o diagnóstico pelo pulso. Birch e Felt afirmam:

“O Shang Han Lun classifica a evolução das doenças epidêmicas em seis níveis e descreve o tratamento específico para cada estágio. Os tratamentos se baseiam em várias substâncias medicinais colocadas juntas em uma decocção seguindo os princípios do Yin-Yang. Cada substância pode ser modificada de acordo com as manifestações observadas junto ao leito do paciente. O texto possui algumas breves referências a aplicação de agulhas inclusive a utilização do método wei jiu de agulhar com aquecimento, podendo ser a origem das técnicas modernas de agulhas aquecidas por meio de moxas. Por fim, Zhang Zhong Jin teve um efeito profundo e duradouro na prática e no desenvolvimento da farmacologia chinesa…”( Birch e Felt, 2002: 26)

Outro importante médico do final da dinastia Han foi Hua To que nasceu na província de An Hui, próximo a Shanghai, em aproximadamente 110 D C. O médico tornou-se famoso devido aos procedimentos cirúrgicos e anestésicos que utilizava, pela sua habilidade no diagnóstico e pela criação de uma série de exercícios físicos para promover a saúde. Svoboda e Lade afirmam com relação as práticas cirúrgicas de Hua To:    

“Uma interessante figura deste período foi Hua To ( 110 a 208 D C), que é reverenciado como médico e cirurgião brilhante, e também como criador de diversos exercícios físicos taoístas ( Dao Yin), especialmente o sistema baseado nos movimentos de cinco animais. Os relatos de suas técnicas cirúrgicas têm notável semelhança com os métodos cirúrgicos expostos nos textos ayurvédicos, em especial o uso de um preparado a base de cânhamo (ma fei san) para gerar um efeito analgésico no paciente antes da operação. Provas circunstanciais indicam de fato que Hua To, muito provavelmente, Assimilou ao menos algumas de suas habilidades de fontes indianas.”

( Svoboda e Lade, 1995; 83)

 Esta interessante colocação  pelos autores peca por não fornecer as referências bibliográficas as “provas circunstanciais” indicando a influência das práticas de Hua To pela tradição cirúrgica indiana, provavelmente mais antiga que teve como principal expoente, um médico cirurgião chamado Sushruta que deu o nome ao tratado mais antigo de cirurgia que chegou aos nossos dias: Sushruta Samhita.

     O Shen Nong Bemcao Ching ou Clássico da Medicina Herbácea foi provavelmente compilado durante a dinastia Han e parece ter recebido alguma influência de fontes ocidentais a China. Hoize e Hoize afirmam:

….”a expansão política e o crescimento das relações comerciais durante a dinastia Han introduziu na China novas plantas como a alfafa e a videira de “xiyu”, ou seja paises ocidentais, isto é regiões situada a oeste do oásis  Dunhuang na estrada da seda…” (Hoizey e Hoizey, 1993: 40)

A famosa Estrada da Seda, por onde haviam as trocas comerciais, caminhava em direção ao ocidente e tinha um ramo que chegava diretamente no sul da Ásia, região do

subcontinente indiano. A tradição do uso de plantas medicinais na Índia é muito antiga e remonta do terceiro milênio A C, logo as trocas podem ter acontecido nos dois sentidos pois ambas as tradições, chinesa e indiana, têm  farmacopéias muito ricas com a descrição de centenas de plantas medicinais para o uso terapêutico. Hoizey e Hoizey afirmam:

“O Shen Nong BenCao Ching ou o Clássico da medicina Herbácea foi  compilado durante a dinastia Han, provavelmente em algum momento no primeiro século D C. Ele introduziu um novo termo, Benção, literalmente erva essencial, e listou 365 drogas: 252 plantas medicinais, 67 de origem animal e 46 de fontes minerais…”(Hoize e Hoize, 1993:40)

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

O ENCONTRO DAS TRADIÇÕES CHINESA E INDIANA

Na primeira parte deste trabalho pesquisamos a tradição chinesa no período de formação da Medicina Chinesa, a partir da dinastia Zhou quando se formou o pensamento chinês clássico que possui duas fontes distintas: o Taoísmo e o Confucionismo. Estes são dois pilares da tradição filosófica chinesa, o terceiro pilar o Budismo só teria alcançado a China no primeiro século da nossa era. Além da dinastia Zhou vimos as duas dinastias subseqüentes ; a pequena dinastia Qin e a revolucionária dinastia Han onde foram publicados os principais trabalhos clássicos da Medicina Chinesa.

Durante a segunda parte foi a tradição indiana o objeto de nosso estudo , no período de formação da escola médica clássica da Índia; o Ayurveda. Analisamos as possíveis influências desde a formação da civilização indiana, passando pelo período védico até chegarmos ao Budismo que, como vimos, teve um importante papel na sistematização da racionalidade médica Ayurvedica.

Agora iremos buscar os pontos de encontro entre estas duas tradições a partir de evidências que possam sugerir que o desenvolvimento destas duas escolas não tenha sido isolado mas sim baseado em possíveis intercâmbios de idéias e experiências que teriam influenciado ambas as civilizações  milenares. Nosso objetivo em momento algum será fazer afirmações ou colocar certezas mas trilhar o caminho da possibilidade e a partir disto lançar hipóteses e sugerir novas pesquisas dentro destas hipóteses.

Vamos iniciar esta discussão com a afirmação de Unschuld sobre o Budismo na China:

“ Condições históricas provaram ser favoráveis a doutrina budista….. Budismo entrou na China através da Ásia central no primeiro século. A indicação mais primitiva de uma comunidade budista na China é de 65 D C. Parece que a elite foi a primeira a ser atraída pelos novos ensinamentos. Mas, ao menos, no quarto século o budismo tinha alcança todos os níveis da sociedade. Era inevitável que tamanho fundamento ideológico também trouxesse uma nova dimensão ao tratamento das doenças, expandindo o já existente espectro do sistema terapêutico na China”…( Unschuld, 1985: 133

Com esta afirmação Unschuld coloca a importante questão das novas idéias e filosofias que entraram na China  a partir da expansão do Budismo que teve seu inicio no século III AC  com a conversão do imperador Ashoka ao pensamento de Buda. Sobre isto Svoboda afirma:

“No terceiro século  A C, Ashoka, imperador da maior parte do norte da Índia converteu-se ao budismo.. e ele enviou muitos embaixadores e missionários aos países vizinhos…” (Svoboda and Lade, 1995: 91)

Existe a possibilidade de que o primeiro contato entre as duas culturas tenha sido através de Ashoka, ou um pouco mais tarde no século II A C com a abertura das rotas comercias: Estrada da Seda e Estrada da Birmânia. Junto com a troca de mercadorias há a troca de idéias e filosofias neste momento histórico a China e a Índia se encontravam e em momentos auspiciosos para as duas tradições, pois a China estava iniciando a dinastia Han, um período demais de  400 anos com muitas transformações e a Índia estava em franca expansão do Budismo, filosofia que teve um papel fundamental no desenvolvimento do Ayurveda, pois como vimos muitos médicos indianos estavam diretamente relacionados ao pensamento de Buda. Não apenas isto, mas a filosofia budista, que nos seus primórdios  já pregava o conhecido “caminho do meio”,  influenciou o pensamento médico na Índia de uma forma mais liberal sem os “tabus” que controlavam a tradição religiosa hegemônica dos Vedas.

     As tradições médicas dos dois países têm muitas semelhanças, mas também muitas diferenças, ambas tiveram um forte apelo filosófico-religioso no seu desenvolvimento mas isto sem sombra de dúvida é muito maior atualmente na Índia que na China pois  o governo comunista procurou excluir da Medicina Tradicional Chinesa toda influência filosófico-religiosa e procurou conceber uma Medicina Chinesa “científica”, esta influência marxista não ocorreu na Medicina Indiana onde a influência religiosa continua sendo marcante.

Os Doshas ou humores biológicos indianos não têm paralelo na Medicina Chinesa, mas podemos fazer associações com a teoria do Yin-Yang e o Qi. Com relação a esta analogia Svoboda e Lade argumentaram:

“Embora tanto o Ayurveda quanto a Medicina Chinesa proponham um modelo de cinco elementos para a organização da base física do homem, na tradição médica indiana este modelo é simplificado e reduzido a uma teoria trinitária para a compreensão da fisiologia humana e as associações energéticas: a teoria dos três Doshas. Esse modelo Ayurvédico se articula bem com a conceituação que faz a Medicina Chinesa de Yin, Yang e Qi, potencial que nasce dos dois primeiros, embora os Doshas não possam ser igualados a seus correlatos chineses. Kapha se relaciona mais intimamente com a Água, exibindo os atributos deste Elemento e assim é análogo ao Yin. Pitta por sua vez corresponde a imagem do Yang, pois se relaciona ao Fogo, apresentando as qualidades deste elemento. E Vata, que está basicamente associado ao elemento Ar, sendo responsável por toda a forma de circulação, incluindo a de Prana, encontra paralelo na ideia chinesa de Qi.” ( Svoboda and Lade, 1995: 95)

Esta interessante afirmação dos autores faz uma analogia entre a fisiologia chinesa e indiana. Nós achamos que o conceito de Prana lembra muito o paradigma do Qi. Pois segundo o “Sanscrit English Dictionary” Prana é o “respirar da vida”, vento, inalação de ar e no Chinese-English Dictionary, Qi  significa gás, ar e respirar logo existe uma semelhança entre os dois conceitos.Ambos, Prana e Qi, circulam em condutos e atuam em órgãos e tecidos. A saúde está relacionada com a boa circulação destas “influências” pelo nosso corpo, e em ambas as tradições existem técnicas que utilizam a respiração e a concentração para mobilizá-los: Qi Gong (trabalho com o Qi) e Pranayama ( controle do Prana).

Na minha experiência pessoal com Qi Gong na China e Pranayama na Índia, nos anos 90 tive a oportunidade de observar a grande semelhança que existe entre os conceitos teóricos e a vivência prática destas duas escolas orientais. Ambas as técnicas procuram através da concentração da mente mobilizar o fluxo de Qi/Prana pelos condutos Jing Lo/Nadis ao associar este fluxo com as práticas de disciplinas respiratórias.

Ambas as doutrinas e filosofias enfatizam o equilíbrio através da integração com as leis da natureza e a moderação nos hábitos e nas ações. O caminho do meio budista está impregnado em ambas as tradições. Assim como a prática de exercícios físicos terapêuticos como o Tai Chi na China e o Hatha Yoga na Índia.

A Medicina Chinesa e Indiana fazem, ambas, uso de drogas de origem mineral, animal e vegetal. Porem, sem sombra de duvida, o ênfase é a fitoterapia, ou seja o uso terapêutico das plantas medicinais, e muitas são comuns as duas tradições. Além disso a massagem terapêutica é largamente empregada nas duas escolas de forma integrada com o diagnóstico do desequilíbrio do paciente. Sobre a integração das duas doutrinas e de sua fisiopatologia Svoboda e Lade afirmaram:

          “ Como o Ayurveda, em geral, se concentra mais na compreensão e no tratamento de tipos constitucionais, enquanto a Medicina Chinesa cuida predominantemente de padrões específicos de doenças, estes dois enfoques de um viver saudável são potencialmente complementares. Por exemplo, do ponto de vista da Medicina Chinesa, Kapha exibe características de hipoatividade.

Isso se manifesta no organismo como uma tendência ao peso e ao frio devido a deficiencia de Yang ( calor). Os fluidos corporais se acumulam facilmente, devido a uma circulação obstruída, e ocorre então a diminuição do funcionamento digestivo e metabólico. As doenças ligadas a umidade, frio e catarro se encontram dentro do domínio de Kapha. A disposição mental que distingue Kapha é o embotamento da mente, que provoca possessividade, melancolia, calma e a tendência a uma tolerância excessiva. Na Medicina Chinesa estas são síndromes básicamente associadas ao Baço e ao Estomago e secundariamente aquelas que envolvem Pulmões, Rins e Bexiga, que parecem mais intimamente relacionadas a Ka-pha…Pitta exibe a característica geral de hiperatividade atributo decididamente Yang.

No corpo isto se manifesta como leveza e calor, devido a deficiência de Yin corporal. Essa condição de excessivo calor prejudica o sangue e aumenta a atividade digestiva e metabólica. Na Medicina Chinesa os distúrbios ligados ao calor  (fogo e calor de verão ), incluindo a condição de calor no sangue, são considerados correspondentes a Pitta. A disposição mental deste Dosha envolve a agudeza da mente discriminação apurada, disposição agressiva, raiva e ciúme. Na Medicina Chinesa os padrões do Fígado e da Vesícula Biliar e secundariamente do Coração, do Intestino Delgado e dos Rins, relacionam-se mais intimamente com Pitta…Vata tem característica geral de ser móvel e instável como o vento, e produz um senso de constante alteração no corpo e na mente. Em excesso isto se manifesta como dores e sensações que não são fixas em manifestação e duração com uma tendência a secura. No Ayurveda, Vata esta intimamente ligado a Prana; e este na Medicina Chinesa pode ser comparado ao Qi. Assim a manifestação de Vata, corresponde a estado de deficiência de Qi e perturbações de sua circulação. O estado mental de Vata revela uma disposição mutável marcada pelo medo, mau humor, nervosismo, preocupação e impaciência. Na Medicina Chinesa o desequilibrio de Vata se correlaciona primariamente com os padrões orgânicos ligados as síndromes do Fígado e do Pulmão e secundariamente do Protetor do Coração, do Triplo Aquecedor e do Intestino Grosso…  (Svoboda and Lade, 1995: 113 e 114)

Esta colocação de Svoboda e Lade, extremamente interessante, coloca a possibilidade de complementaridade das duas escolas, pelos profissionais, sem perder as características fundamentais e peculiares de ambas as tradições. Nós acreditamos que as duas racionalidades médicas são complementares e podem ser usadas de forma associada na prática clínica, sem nenhum prejuízo para as suas doutrinas e filosofias.

     Quando desenvolvemos o pensamento médico chinês, nós colocamos que havia um “elo perdido” na história da mudança de paradigmas entre uma medicina mágico-demonológica baseado no contato com o sobre-natural, shamanista, e uma medicina de correspondência sistemática, baseada na observação dos fenômenos naturais. Pois no século II mais precisamente 168 A C nos manuscritos de Ma Wan Dui, existem meridianos, mas não há acupuntura, acupontos nem o paradigma do Qi tinha sido desenvolvido adequadamente porém no Huang Ti Nei Ching, compilado entre o segundo e o primeiro século antes de Cristo já encontramos uma mudança de paradigma com acupontos, circulação de Qi e acupuntura sistematizada. Surgiram três perguntas de difícil resposta:             

 1 – Como surgiu a medicina de correspondência sistemática?

2 – De onde veio a teoria do Qi e dos meridianos chineses?

3-  Como foi desenvolvida a acupuntura e os acupontos?

São perguntas que nós tentaremos formular algumas possíveis hipóteses associada as evidências que nós encontramos na literatura. A teoria da medicina de correspondência sistemática foi desenvolvida, esta é a nossa hipótese, através das observações dos sábios chineses dos fenômenos naturais que tem a sua maior representação na teoria do Yin-Yang e nas Cinco Fases ou Elementos que encontram ressonância nas mudanças das estações do ano e nos ciclos de alternância do dia e da noite. Possivelmente os filósofos taoístas tiveram uma importância neste desenvolvimento.

Além dos Taoistas temos que levantar a possibilidade de uma influência externa a China no desenvolvimento da teoria dos 5 Elementos ou Movimentos pois em fontes do período védico tardio encontramos referências aos elementos da natureza na tradição indiana. O Taittiriya Upanishad cerca de 600 A C afirma:

            “ Do Si-Próprio (atman) surgiu o espaço

               Do espaço, o vento

               Do vento, o fogo

               Do fogo, a água

               Da água, a terra

               E da terra, as plantas, alimentos…( Campbell, 2002: 337)

Como podemos observar o paradigma do Qi chinês é semelhante a teoria do Prana indiano e que ambas as “substâncias” fluem em condutos e que se relacionam a pontos vitais acupontos ou marmas. Unschuld afirma sobre a acupuntura na China:

“…Aparentemente um certo tipo de tratamento com agulhas existe de épocas desconhecidas. Iniciando no terceiro e especialmente no segundo século A C, a teoria dos meridianos se desenvolveu na base da inter-relação de todas as funções do organismo, por um sistema de canais interconectados por onde passam Qi e sangue. Somente quando estes dois itens surgiram: a teoria dos canais na fisiologia e patologia de um lado e a noção que certas doenças podem ser curadas se as agulhas forem puncionadas no músculo, somente quando estes dois componentes uniram-se ou seja  quando a noção de que puncionar as agulhas no corpo podia influenciar o curso do Qi e sangue somente neste momento a acupuntura surgiu. Puncionar as agulhas sem a noção da circulação de Qi nos canais não é acupuntura e não está restrito a China.” (Unschuld, por email 2003)

Com esta afirmação, Unschuld coloca que para a existência de acupuntura é necessário além das agulhas, o paradigma do Qi, os meridianos ou canais e os acupontos onde serão introduzidas as agulhas para influenciar a circulação deste Qi. Conceito fundamental para avaliarmos a  acupuntura indiana ou ayurvedica, como prefere  Dr. Frank Ros. Na Índia o conceito de circulação de Prana em canais é possivelmente anterior ao século II A C, assim como a teoria dos marmas relacionados a condutos e a circulação de Prana. Shifu Nagaboshi Tomio afirma:

 Na tradição moderna de acupuntura existe uma lenda, que é recontada, que a descoberta dos pontos vitais iniciou-se na Índia como resultado dos estudos e pesquisas em combate realizados pelos guerreiros Ksatreia indianos,  com o objetivo de descobrir os pontos vitais e mortais  no corpo que poderiam ser tocados em um combate com as mãos. É dito que eles experimentaram nos prisioneiros  puncionando seus corpos com agulhas-adagas de ferro e pedra. Esta lenda chinesa reflete e complementa o conto indiano onde é dito que após as batalhas efeitos terapêuticos apareceram de feridas superficiais,  recebidas pelos guerreiros na batalha, feitas com adagas ou flechas. Por associar a cura dessas feridas com a lesão pelas adagas ou flechas vários médicos iniciaram uma experimentação com agulhas em si mesmo ou nos outros com objetivo de descobrir os pontos e áreas de valor terapêutico e quaisquer outros que a energia pode ser gerada ou dispersa. Estes pontos foram reconhecidos como regiões especiais do corpo onde a energia poderia ser modificada, ou alterada por influências externas,  como pressão dos dedos ou manipulação.” (Tomio, 1994:145)

 A nossa tentativa é pegar várias peças separadas em diferentes fontes e juntar o “quebra cabeça” da acupuntura e tentar propor uma hipótese que possa explicar o surgimento “aparentemente do nada” da acupuntura na China em torno do século II AC. Ao unirmos todos estes dados, como um “Sherlock Holmes” da história podemos apresentar a hipótese que a Índia estava em condições de desenvolver através da experimentação nos pontos marmas, um sistema semelhante a acupuntura chinesa, chamada de Suchi Veda, ou literalmente conhecimento das agulhas.     

As transformações que levaram mudança de paradigma de uma medicina ancorada nas forças sobrenaturais, mágico-demonológica, para uma medicina do contato com a natureza ou de correspondência-sistemática na China. Também ocorreu em épocas semelhantes ou seja segunda metade do primeiro milênio antes da nossa era na Índia, com  a transformação de paradigmas que aconteceu na Medicina Indiana. A medicina mágico-religiosa dos Vedas, que nunca deixou de existir, foi sendo substituída por uma medicina empírico-racional, não védica, que passou a ser conhecida como Ayurveda ou a ciência da vida. Esta mudança que teve como combustível,  segundo Zysk e Ramachandra Rao,as tradições não védicas do Budismo, Tantrismo e dos ascetas errantes Sramanas, além do possível contato com outras tradições como a alquimia chinesa, não está totalmente elucidada pois faltam referências na literatura indiana antiga sobre esta tradição intermediária entre os Vedas e o Ayurveda.

Nos parece que as tradições chinesa e indiana sofreram transformações muito semelhantes no primeiro milênio antes da nossa era, é possível que durante este período e principalmente a partir do século III A C, o intercâmbio proporcionado pelas trocas comerciais e pela expansão do budismo na Ásia central a partir do sub-continente indiano tenha sido um estímulo as novas idéias e transformações do pensamento médico de ambas as civilizações.   

A nossa hipótese é que os indianos desenvolveram em uma época anterior ao século II A.C., um sistema primitivo de acupuntura baseado na teoria dos marmas através da experimentação, relacionado a teoria da circulação do Prana nos condutos, formando os pré-requisitos que Unschuld colocou para uma prática ser chamada de acupuntura: puncionar as agulhas em pontos que terão influência na circulação de Prana com objetivo terapêutico. Esta acupuntura indiana teria sido levada a China provavelmente por volta do século III ou II AC, junto com o Budismo, e teria provocado todo a condição para o desenvolvimento da acupuntura chinesa a partir da dinastia Han. Associado ao uso das agulhas a teoria do Prana e dos marmas teria sido levada para a China e lá se desenvolvido. O conceito de Prana teria sido importante para o desenvolvimento do paradigma do Qi. Já os pontos marmas e os nadis seriam as influências do “elo perdido” que teriam levado a formação dos acupontos e dos meridianos chineses a partir do século II A.C.

Esta é apenas uma  hipótese que necessita de maior investigação através de outras fontes e referências históricas. Como disse Unschuld:

        “A origem da acupuntura na China não está clara. Nenhuma fonte chinesa conhecida, anterior ao Shih-chi (90 A C) contém qualquer referência a técnica.” ( Unschuld, 1985: 94)

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

O CONFUCIONISMO

Durante a dinastia Zhou, no século VI a. C, surgiu na China a primeira das 3 escolas clássicas do pensamento chinês, a saber: confucionismo, taoísmo e budismo. O fundador do confucionismo, Gong Qiu, viveu de 551 a 479  A.C., ficou conhecido no ocidente pela latinização de seu nome: Confúcio. Conta a lenda que nascido em uma castas de nobres pertencentes a uma classe inferior ascendeu de posição e se tornou o primeiro ministro. Porém ficou decepcionado com a depravação do soberano e desistiu de sua posição para vagar na companhia de seus discípulos buscando um lugar que pudesse aplicar sua filosofia.

     Segundo Confúcio, a força Te, que em eras antigas relacionava-se com influencias mágicas, agora emanava da conduta moral impecável baseada na virtude humana, piedade e justiça do homem superior. O homem superior não estava mais determinado automaticamente pelo nascimento, mas pela aquisição de certas qualidades. Confúcio acreditava na habilidade inata do homem de aprender e achava necessário que o príncipe deveria ser a pessoa que melhor incorporava a virtude. Uma das mais importantes afirmações da filosofia de Confúcio, que relaciona-se diretamente com a Medicina Chinesa de correspondências sistemáticas ( teoria do yin-yang e 5 fases),  era que o excesso em qualquer área quebra a ordem social e deve portanto ser evitado.

    O trabalho de Hsun Tzu ( 238  a. C.), seguidor de Confúcio,  merece especial atenção, pois revela claramente a relação entre o confucionismo e a Medicina Chinesa de correspondência sistemática, que posteriormente formularia a teoria do yin-yang e das 5 fases, foram descritas pela primeira vez no Huang Ti Nei Ching ( o livro clássico da medicina interna do Imperador Amarelo) no século II   a.C.. Hsun Tzu afirma:

“O verdadeiro governante começa a colocar o seu estado em ordem quando a ordem ainda prevalece; ele não espera que as insurreições já tenham eclodido.” ( Hsun Tzu em Unschuld, 1985: p.63)

 

    No livro clássico de medicina interna do Imperador Amarelo ( Huang Ti Nei Ching ) existe uma passagem muito semelhante a esta afirmação de Huan Tzu, demonstrando a importancia da filosofia de Confúcio no desenvolvimento do pensamento médico chinês:

“ Os sábios não tratam aqueles que já caíram doentes, mas aqueles que não estão doentes. Eles não colocam o seu estado em ordem apenas quando a revolta esta em desenvolvimento mas antes de ocorrer a insurreição. (Huang-Ti Nei Ching Su Wen, em Unschuld, 1985: p 63)

          O sábio Hsun Tzu ensinava que cada ser humano pode elevar-se a um grande estado de moralidade através do estudo dos livros clássicos e levando os costumes seriamente. Nos seus escritos afirmava:

“Se a pessoa utiliza seu corpo e sua natureza , seu discernimento, entendimento e deliberação com o senso apurado, da maneira como o costume recomenda, seguir-se-ão a ordem e o sucesso, caso contrario, o resultado é a imprecisão e a sublevação, ociosidade e indisciplina. Se o consumo de comida ou bebidas, o vestuário, os alojamentos dentro e fora de casa, assim como o movimento e o descanso são cumpridos de maneira como o costume recomenda, atingir-se-á harmonia e ordem; caso contrario para o que não cumpre este estará sujeito ao ataque e a traição, e a doença ocorrerá.”  ( Hsun Tzu em Birch e Felt, 2002: p. 11)                                                 

     Apesar dos ensinamentos de Confúcio serem eminentemente práticos a realização deles por uma pessoa comum não é nada fácil. Como disse certa vez o próprio Confúcio:

 

“Eu nunca vi alguém que realmente amava a humanidade ou alguém que odiava a desumanidade. Alguém que realmente ama a humanidade não colocará nada acima disto, alguém que realmente odeia a desumanidade irá praticar a humanidade de tal maneira que a desumanidade não terá chance de alcançá-lo. Existe alguém que consagrou sua força a humanidade durante apenas um dia? Eu não encontrei ninguém com a suficiente força para fazer isto. Talvez exista esta pessoa mas eu não a vi.”(Shu Hsien Liu, em Bishop ed., 1995:p. 21)

     O processo educacional que Confúcio experimentou durante a sua vida é extremamente interessante. Nas palavras de Confúcio:

“Aos 15 anos minha mente estava firme no aprendizado. Aos 30 anos o meu caráter estava formado. Aos 40 eu não tinha mais perplexidades. Aos 50 eu sabia o “Mandato dos Céus”(Tien Ming). Aos 60 eu estava confortável com tudo que eu ouvia e aos 70 eu podia seguir os desejos do meu coração sem transgredir ao princípios morais” ( Shu Hsien Liu, em Bishop ed., 1995: 22)

     A filosofia confucionista teve uma grande influencia no pensamento da Medicina  Chinesa. Pois o conceito do homem superior, desenvolvido por Confúcio, veio trazer um ideal de ser humano que foi utilizado a partir de então na antiga tradição médica da China. Podemos encontrar as raízes do desenvolvimento da medicina chinesa de correspondência- sistemática, baseada na teoria do yin-yang e das 5 fases, nos escritos de Confúcio:

“Um erudito determinado e um homem de humanidade nunca irá procurar viver as custas do prejuízo da humanidade. Ele poderia sacrificar a sua vida a fim de realizar  a humanidade.” (Shu Hsien Liu, em Bishop ed, 1995:p.  22)

 

     A partir do século V A.C. a escola confucionista foi a filosofia que veio transformar todo o pensamento chinês que antes era baseado na escola Shamanista ou mágico-demo-

nologica. Nas palavras do próprio Confúcio:

“Devote a si mesmo, zelosamente, as obrigações com os homens, e respeite os seres espirituais mas mantenha-os a distancia. Isto pode ser chamado de sabedoria.”(Shu Hsien Liu, em Bishop ed , 1995: 23) 

No seu trabalho “ A History of Chinese Philosophy” Fung Yu Lan coloca:

“Eu, portanto, afirmaria que:

          

  1. Confúcio foi o primeiro homem na China a fazer do magistério sua profissão, então popularizou a cultura e a educação. Foi ele que abriu o caminho para os muitos eruditos e filósofos viajantes dos séculos seguintes. Foi, também, ele que inaugurou, ou ao menos desenvolveu, esta classe de cavalheiros na China antiga que não eram fazendeiros, artesãos, comerciantes nem funcionários públicos, mas eram professores profissionais e potencialmente funcionários públicos.
  2. As atividades de Confúcio, eram semelhantes, em muitas maneiras aquelas dos  Sofistas Gregos.
  3. As atividades de Confúcio e sua influencia na história chinesa foram semelhantes àquela de Sócrates no ocidente.” (Fung Yu Lan, 1994: 48 e 49)

 

  No livro “ Entendendo a Acupuntura” dos pesquisadores Birch e Felt encontra-se a seguinte colocação:

“De certa forma podemos afirmar que o confucionismo restabeleceu a antiga ordem moral em que se supunha que um soberano e seus ministros tinham a competência em garantir o bem estar de todos, usando seu elo com o sobrenatural. No entanto, em vez de atribuir essa competência ao contato exclusivo com as divindades, Confúcio atribuía a conduta moral imparcial”. (Birch e Felt, 2002: 11)

     A transformação dos hábitos comportamentais e das instituições sociais decorrente da absorção de novos pontos de vista é outra característica da China que se repete por toda a sua história. Portanto foi natural que o elo  do pensamento da escola confucionista entre o comportamento humano e os resultados sociais se expressasse paralelamente no desenvolvimento da medicina e que a linguagem medica adquirisse a conotação dos conceitos antigos pois os ideogramas haviam sido feitos em função destes conceitos.

     A teoria da medicina de correspondência sistemática afirma que as direções e tendências da vida estão sujeitas a intervenção humana inteligente e ou comportamento individual adequado. Aqueles que acreditavam, na China antiga, que a doença seja desagrado de um agente sobrenatural normalmente não buscavam a causa da enfermidade no seu comportamento ou nos fenômenos chamados naturais.  A mudança de paradigma de uma medicina mágico-demonológica baseada em fenômenos sobrenaturais para a medicina de correspondência sistemática com raízes na observação dos fenômenos naturais teve como pedra angular a filosofia de Confúcio pois esta enfatizava a moderação no comer,, beber,  dormir e  afirmava de que a doença entra pela boca. Certa vez o filósofo fez a seguinte afirmação:  

“ Um Homem sem persistência não será nem um adivinho nem um médico”  (Fu Yu Lan, 1994:p. 65)

     Podemos observar neste momento histórico, século V A.C., uma importante transformação no conceito de doença/cura, pois aquilo que antes era tratado pelas oferendas aos ancestrais ou por rituais e exorcismos através de fenômenos sobrenaturais passou a ser  abordado pela mudança de comportamento com um tom moral muito particular devido a influencia do confucionismo. As mudanças neste período histórico levaram os autores Birch e Felt a afirmarem:

“O período final da dinastia Zhou é conhecido como a época dos “Estados Combatentes”, ( 480 a 221 A C) foi quando houve a dissolução final do feudalismo chinês através de disputas sangrentas entre os grandes e pequenos principados. Neste grande conflito armado todos os traços do “cavalheirismo feudal” foram esquecidos já que a regra era guerrear até o fim. Os reis perderam a sua importância e haviam se tornado mais uma peça a ser removida. Neste período a filosofia era que os camponeses deveriam se dedicar ao cultivo da agricultura e a fazer uso das armas. Apesar desta ser uma das épocas mais violentas da historia da China, houve no final deste período a consolidação de um império na China através do monarca Qin que abriu caminho para a cultura chinesa alcançar um dos seus períodos de maior desenvolvimento”. ( Birch e Felt, 2002 :12 )

  Nesta lista abaixo, Unchuld, coloca os principais paradigmas e sub-paradigmas do desenvolvimento histórico da Medicina Chinesa.

    1-  O paradigma da relação de causa e efeito entre fenômenos correspondentes.

      1.1 Causação através da correspondência mágica

      1.1.1. Mágica Homeopática

      1.1.2    Mágica por contato

      1.2 Causação através da Correspondência Sistemática

      1.2.1    Correspondência do Yin/Yang

      1.2.2    Correspondência das 5 fases          

      

  1.  O paradigma da relação de causa e efeito entre fenômenos não correspondentes.    

      2.1 Causação através da intervenção de fenômenos supranaturais

      2.1.1 Ancestrais

      2.1.2 Espiritos e demônios

      2.1.3 Deuses

      2.1.4 Leis transcendentais

      2.2 Causação através de influencia de fenômenos naturais

      2.2.1 Alimentos e bebidas

      2.2.2 Ar e vento

      2.2.3 Neve e umidade

      2.2.4 Calor e frio

      2.2.5 Influencias materiais sutis

      2.2.6 Parasitas, vírus, bactérias e outros.( Unschuld, 1985:p. 7)

      Na verdade o objeto de estudo desta pesquisa neste momento é a mudança de paradigmas que se iniciou na Medicina Chinesa no final da dinastia Zhou, no chamado “Estados Combatentes” ( 480 a 221 A .C.)e nas dinastias subseqüentes. A Partir do século V A.C. surge uma escola dentro da Medicina Chinesa que propõe uma explicação diferente para o processo saúde/doença, que estava baseado em fenômenos sobrenaturais da medicina mágico-demonológica: Esta escola revolucionária foi a medicina de correspondência sistemática que busca nos fenômenos naturais a explicação para o adoecimento humano.

 

      No seu livro Fundamentos da Medicina Chinesa, Giovanni Maciocia, afirma:

“A escola filosófica que desenvolveu a teoria do Yin e Yang ao seu mais alto nível é chamada de Escola Yin-yang. Muitas escolas de pensamento surgiram durante o período de guerra entre os estados ( 476 a 221  A C.) e a escola Yin-Yang foi uma delas. Dedicava-se ao estudo do Yin-Yang e dos Cinco Elementos e seu principal expoente foi Zou Yan ( 350 a 270 A C.). Esta escola é chamada algumas vezes de Escola Naturalista uma vez que interpreta a natureza de modo positivo, além de utilizar leis naturais a fim de obter vantagens para o homem, não por meio da submissão e controle da mesma ( como acontece na ciência ocidental moderna), mas agindo em harmonia com as suas leis. Esta  escola representa uma tendência a qual podemos atualmente chamar de ciência naturalista, e as teorias do Yin-Yang e dos Cinco Elementos servem para interpretar o fenômeno natural, incluindo o organismo humano, tanto na saúde como nas patologias”.(Maciocia, 1996:p. 2)

 

     O paradigma de correspondências pode ser aplicado tanto para a correspondência mágica como para a correspondência sistemática. Aquele  que melhor explicou isto foi o famoso sinólogo alemão Paul Unschuld:

O paradigma de correspondências combina dois conjuntos de conceitos pelos quais as relações conceituais próximas justificam a designação comum. Estes são os conceitos da correspondência mágica e os conceitos da correspondência sistemática. Ambos são baseados no mesmo principio, nominalmente que o fenômeno do mundo visível e invisível permanecem em dependência mútua através da sua associação com certas linhas de correspondência. O paradigma de correspondência afirma que a manipulação de um elemento em uma linha especifica de correspondência pode influenciar outros elementos da mesma linha. As linhas de correspondência mágica são usualmente separadas umas das outras e não podem exercer influencia sistemática mútua. Na ciência de correspondência sistemática, entretanto, os conceitos mágicos foram refinados e combinados com os elementos da doutrina do Yin-Yang e com a teoria das Cinco Fases e todas as linhas de correspondências foram integradas em um sistema detalhado de correspondência mutua.” (Unschuld, 1985: 52)

       

     No  final da dinastia Zhou haviam 2 tendencias que dominavam o  pensamento mëdico da época : a correspondência mágica e a correspondência sistemática. Dentro da correspondência mágica podemos apontar 2 linhas distintas:

           

  1. A mágica de contato: onde o contato ou a união precedente entre 2 elementos , cria uma relação na qual a manipulação de um dos elementos, que estão agora separados, produz um efeito visível sobre o outro.
  2. A mágica homeopática: está baseada no principio que semelhantes correspondem ou influenciam semelhantes. Acredita-se aqui que o prejuízo ou lesões feitas sobre a imagem de uma pessoa pode resultar em danos verdadeiros nesta pessoa. Dentro desta tendência alimentar-se de nozes, por exemplo, é benéfico ao cérebro pois as nozes têm uma forma semelhante ao cérebro.

     No Livro denominado “Clássico das Montanhas e dos Mares” ( Shan-hai Ching), que foi compilado entre o século VIII e I a. C. demonstra como pode-se transportar os conceitos da mágica homeopática para os processos fisiológicos

“Existe uma planta lá … que não produz frutos. É chamada Ku Jung. Aqueles que a consumirem não terão filhos. Existe um animal lá que a aparência lembra a do gato selvagem… Ele combina ambos os sexos: masculino feminino. Aquele que o consumir  não terá ciúmes.”(Unschuld, 1985: p. 53)

     A mudança de paradigma de uma medicina mágico-demonológica para um sistema baseado em uma correspondência sistemática como as teorias das 5 Fases ou Elementos,

Wu Xing em mandarim, e do Yin-Yang não está bem esclarecida pois faltam documentos suficientes, nas antigas fontes chinesas, para permitir uma identificação fidedigna desta transformação. Paul Unschuld coloca a possibilidade de uma influencia originária de algum lugar ao ocidente da China. As idéias podem ser transmitidas e assimiladas mas muitas vezes transformadas e adaptadas pela nova cultura e língua daquela região que recebeu o novo pensamento.

 

“ A possibilidade de um estimulo estrangeiro não pode ser excluída. É comumente aceito que o desenvolvimento da filosofia grega, isto é, o passo do “mythos” para  “logo” originou-se de influencias antigas de algum outro centro cultural a leste. Os filósofos gregos pegaram aquilo que eles aprenderam de fora, desenvolveram e deram a isto uma aparência grega. Eles não se envergonharam de terem assimilados  pensamentos externos; pelo contrário, eles se orgulharam de terem refinado aquilo que foi trazido a eles em um estado rudimentar. Cerca de 2 séculos mais tarde , um desenvolvimento similar ocorreu na China e as doutrinas conceitualizadas pelos filósofos chineses eram tão inovadoras na historia intelectual chinesa quanto as idéias de Anaximander, Empédocles e Demócrito foram na Grécia. Um impulso filosófico pode ter surgido de uma fonte desconhecida em algum lugar entre a Grécia e a China, carregado pela sua força revolucionária, nunca embora tenha preenchido, o vazio prévio, na sua forma original mas para ser sempre moldada e para ser adaptada as condições locais, correspondendo ao desenvolvimento intelectual local.” (Unschuld, 1985: 54 e 55)

 

    Jagadis Chandra Bose, cientista indiano, educado em Cambridge no inicio do século XX declarou durante a inauguração do Instituto Bose, centro de pesquisas em Calcutá:

 

“Alem disto, desejo que as oportunidades oferecidas por este Instituto sejam postas ao alcance, tanto quanto possível, de pesquisadores de todos os países. Quanto a isto esforço-me para levar avante as tradições de meu país. Há vinte e cinco séculos atrás a Índia acolhia, em suas antigas Universidades de Nalanda e Taxila, estudiosos de todas as partes do mundo.” (Bose, em Yogananda, 1981:p. 76)

 

     Asha Dhar, M.A., em Indian Review, Madras, citado em Self-Realization Magazine, setembro de 1953 afirma:

 

“ A cidade universitária de Taxila era o centro predileto de especialização procurado pelos estudiosos gregos da antiguidade. Muitos gregos passaram a morar na Índia e adotaram o hinduismo e o budismo. A doutrina da reencarnação de Pitágoras tem indubitavelmente origem hindu. Diz-se que Platão, grande admirador da escola pitagórica, em viagem aos países asiáticos, visitou a Pérsia e demorou-se na Índia; seu pensamento reflete a filosofia Shankya; sua tese “A Republica” reafirma idéias hindus; sua divisão da sociedade em corporações nada mais é que o sistema de castas hindu. Max Muller sustentou a surpreendente semelhança entre a linguagem de Platão e a dos Upanishads. Platino revela grande influencia do pensamento Shankya e da concepção budista do nirvana. As fábulas de Esopo são a versão grega das estórias do Panchatantra, a mais velha coleção de fabulas e contos folclóricos da India, levada a terras distantes por marinheiros e mercadores. As Mil e uma Noites e Sinbad, o marujo são versões árabes das estórias maravilhosas hindus. No ano 60 da era cristã, estudiosos chineses iam aprender na famosa Universidade Nalanda, em Bengala, alem de medicina, ciência farmacêutica e astronomia, tambem pintura musica e artesanato.”(Dhar, em Yogananda, 1981:p. 76)

     Podemos colocar a hipótese que Dhar e Bose estejam lançando uma luz na afirmação de  Unschuld de que possivelmente uma influencia externa tenha sido a mola propulsora no desenvolvimento do pensamento chinês que levou a formulação da medicina de correspondência sistemática  .” O impulso filosófico que pode ter surgido de uma fonte desconhecida entre a Grécia e a China” segundo Unschuld, seria possivelmente o sul da Ásia ou mais precisamente o sub-continente indiano. Onde existia uma civilização, mais antiga que a chinesa, que teve importante influencia no pensamento filosófico asiático através do hinduísmo e seu filho o budismo.

 

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.