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ACUPUNTURA

A Acupuntura é uma das especialidades da Medicina Tradicional Chinesa e apresenta muitas centenas de anos de evolução na China. Os textos mais antigos referem-se a dinastia Han, a partir do século II a.C.. Os mais importantes são o Nei Ching e o Nan Ching onde esta racionalidade oriental começou a ser descrita de forma sistemática. No século VI da nossa era a acupuntura migrou para o Japão e Coreia levados pelos monges chineses que viajavam para transmitir a mensagem de Sidartha Gautama, o Buda ( literalmente o iluminado). Nestes países orientais a técnica desenvolveu em escolas singulares, distintas da forma original chinesa,  o que enriqueceu ainda mais a evolução da acupuntura no oriente.

O Objetivo da acupuntura é promover a circulação adequada de Qi ( energia) e Xue ( sangue) nos meridianos energéticos ( canais e colaterais). Com este objetivo faz-se um estímulo nos pontos dos meridianos através  de agulhas ou calor ( moxabustão) que ira melhorar toda a circulação energética e também promoverá o equilíbrio das forças Yin ( energia simbolizada pela lua: noite, frio, passividade, e quietude ) e as forças Yang ( energia simbolizada pelo sol: dia,calor, atividade e agitação). A diferença na abordagem é que a Medicina Oriental valoriza mais a pessoa do que a doença. Foi o desequilíbrio que levou aquele indivíduo ao adoecimento e isto não ocorreu de um dia para o outro mas pode ser uma evolução de vários anos de desarmonia.

Modernamente a acupuntura vem sendo pesquisada, tanto no oriente como no ocidente, demonstrando evidências incontestáveis de sua eficácia. O estímulo das agulhas promove a liberação de substâncias com ação analgésica ( neuropeptídeos ) que explicariam a ação da acupuntura nas quadros dolorosos e doenças inflamatórias. Segundo a literatura 70 a 80 % dos pacientes respondem ao tratamento com acupuntura. Existem pacientes que apresentam respostas excelentes porem outros nem tanto. Normalmente indicamos 10 sessões de acupuntura, 2 vezes na semana, para observarmos o resultado terapêutico e avaliarmos a necessidade de continuidade ou não do tratamento.

INDICAÇÕES DO TRATAMENTO COM ACUPUNTURA PELA ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE – OMS

1-Pediatria: diarréia, convulsão e obesidade infantil.

2- Ginecologia: TPM, cólica menstrual, cistite, obstrução da trompa, ovário policístico, infertilidade e menopausa.

3- Psiquiatria: depressão, ansiedade, insônia e estresse.

4-  Neurologia: cefaleias (dor de cabeça), tonteira, neuralgia do trigêmeo, neuralgias, disfunção da ATM, paralisia facial e AVC ( ataque vascular cerebral).

5- Otorrinolaringologia: zumbido, dor de garganta, amigdalite, rinite e sinusite.

6- Gastro-enterologia: dor abdominal, cólica intestinal, náuseas e vômitos, diarréia, constipação, hiperacidez, gastrite crônica, ulcera péptica, síndrome do intestino irritável, enterite e hemorroidas.

7- Cardiologia: doença coronariana, angina pectoris, hipertensão arterial e hipotensão arterial.

8- Dependência química: alcoolismo, tabagismo, dependência a cocaína e heroína.

9- Dermatologia: acne, herpes zoster e psoríase.

10-Pneumologia: bronquite e asma.

11-Reumatologia: distensão muscular, dor cervical, dor aguda na coluna vertebral, dor lombar, dor ciática, dor no joelho, fibromialgia, artrose, artrite reumatóide e gota.

12-Obstetrícia:  enjoo, correção da posição fetal, indução ao parto, dor no parto, lactação deficiente.

13-Endocrinologia: obesidade e diabetes mellitus.

Associado a terapêutica com acupuntura recomendamos a fitoterapia ( uso terapêutico das plantas medicinais)  e uma dieta equilibrada e saudável. Na visão oriental o estilo de vida do paciente é fundamental no resultado terapêutico  do tratamento. Observamos que não adianta indicarmos a melhor acupuntura e fitoterapia se o paciente tem hábitos deletérios a sua saúde incluindo aqui sua rotina diária e alimentação.  Os pilares da nossa abordagem integrativa e individualizada depende do diagnóstico do desequilíbrio do paciente. Esta leitura é realizada pela história detalhada e exame físico minucioso.  Nesta abordagem integrativa utilizamos as seguintes ferramentas:

  1. Fitoterapia ( utilização terapêutica das plantas medicinais)
  2. Acupuntura
  3. Dieta equilibrada e saudável
  4. Atividade física moderada e orientada
  5. Meditação ( orientação sobre introspecção e autoconhecimento)
  6. Recomendação com relação a rotina diária de hábitos saudáveis ( estilo de vida)

 

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

HUANG TI NEI CHING: O PRIMEIRO TEXTO SOBRE ACUPUNTURA

 O Huang Ti Nei Ching ou o Classico de Medicina Interna do Imperador Amarelo é uma compilação, concluída provavelmente entre o século II e I A C, feita através de um suposto dialogo entre o lendário Imperador Amarelo ( 2698 a 2598 A C ) e seu ministro Qi Bo. O livro é dividido em duas partes: O Su Wen e o Ling Shu. Birch e Felt afirmam:

“ Há duas seções cada uma composta de múltiplos livros: o Su Wen ou “Questões Fundamentais” e o Ling Shu ou “Eixo/Pivo Espiritual”. No primeiro livro a conversa elucida alguns pontos sobre a teoria médica. O outro livro é essencialmente um manual de acupuntura. Tradicionalmente a data atribuída a este livro é o período entre os anos 2698 a 2599 A C, período também atribuído ao Imperador Amarelo, mas os estudiosos do assunto concordam atualmente que o Nei Ching foi concluído provavelmente entre o século II e o século I A C.” (Birch e Felt, 2002:19)

    O “Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo” na verdade é uma compilação do conhecimento médico desenvolvido na China, por vários autores, até o século I A C.A versão do tratado que chegou aos nossos dias foi escrita por Wang Ping no século VIII da nossa era. No prefácio do Nei Ching, Wang Ping escreve:

“ Qualquer um que deseje subir a montanha Tai não pode faze-lo sem uma estrada; qualquer um que deseje viajar ate o Japão não pode chegar lá sem um barco. Então eu investiguei, cuidadosamente, os textos originais  e visitei extensivamente as pessoas que podiam me ajudar. Após doze anos de estudo, agora eu finalmente entendi os princípios. Eu investiguei os pontos corretos e os pontos errados e o resultado satisfaz o meu antigo desejo. Eu recebi o segredo original, as edições escondidas do mestre mais importante, sua excelência Zhang Zhong Jin na casa de meu professor Guo Zi Zhai, a escrita neste texto é muito clara, os princípios e a razão do seu conteúdo são muito completos; E ao utilizá-lo com o propósito de interpretação, muitos pontos duvidosos desapareceram como o gelo derretido. Como eu tenho medo que estes textos possam desaparecer em minhas mãos e como conseqüência o material de ensino irá desaparecer, eu escrevi um comentário com o objetivo de perpetua-lo eternamente. Eu combinei isto com o texto em minhas posses em um livro de 81 capitulos e 24 rolos. A minha intenção é investigar a calda para entender a cabeça, investigar os comentários para entender o clássico, desenvolver o conhecimento médico para os homens jovens e espalhar largamente os princípios mais elevados.”  ( Wang Ping, século VIII: 5)

           

     Este comentário de Wang Ping, do século VIII da nossa era, demonstra a importância do Huang Ti Nei Ching dentro da história da Medicina Chinesa, com certeza é um texto que mostra a evolução do pensamento médico na China desde Ma Wan Tui, manuscrito mais antigo que não cita a acupuntura nem os acupontos. Outra interessante observação de Wang Ping foi sobre Zhang Zhong Jin, médico do final da dinastia Han, que escreveu dois trabalhos no século II da nossa era, aqui ele é denominado ‘o mestre mais importante sua excelência Zhang Zhong Jin.’O que confirma a sua grande fama posterior a dinastia Han. Nas palavras de Birch e Felt podemos compreender a importância do Huang Ti Nei Ching dentro da evolução dos conceitos da  medicina mágico-demonologica para a medicina de correspondência sistemática:

“A contribuição dada pelo texto e seu lugar na historia são claras: não pode ser nada menos que a gênese da medicina na China, mesmo que houvessem textos e fatos mais importantes, que nunca saberemos. Simboliza o momento em que as idéias essenciais sobre doença e tratamento alcançam a maturidade. A doença já não significava mais uma das muitas  catástrofes para as quais o ser humano buscava o socorro sobrenatural. A medicina se tornara um esforço humano dissociado da religião. O texto não apenas congregou em uma única fonte os aspectos mais fundamentais da medicina de correspondência sistemática, como também chamou a atenção para a necessidade de ter tratamentos distintos para sintomas individuais, idéia que permanece ate o presente. Como pedras não lapidadas, as idéias possuem bordas ásperas e ainda precisam ser polidas e apresentadas de forma mais elegante. Contudo os 162 artigos do Nei Ching mostram não apenas a absorção e extensão da teoria do Yin-Yang e a incorporação dos conceito relativamente mais recente dos cinco elementos, mas também focaliza os sintomas individuais como sendo somáticos em vez de serem efeitos sobrenaturais. Pela importância desta obra, o Huang Ti Nei Ching, não é rigorosamente estruturado nem sistemático. O livro fica mais bem compreendido como sendo a primeira mais antiga tentativa de reunir a arte da medicina a partir das várias escolas de pensamento médico que sobreviveram ate o período da dinastia Han. Por tanto o Nei Ching nos permite dar uma olhada nas bases da Medicina Tradicional Chinesa em relação a anatomia, fisiologia e as raízes das teorias da patologia e seu tratamento. O livro é uma janela que se abre para a medicina de correspondência sistemática da forma como esta amadureceu; um período de transição em que a acupuntura havia se tornado a terapia mais importante e os conceitos da correspondência sistemática haviam assumido o papel principal. No entanto nem as técnicas nem as bases do conceito haviam alcançado a elaboração final.”(Birch e Frelt, 2002: 19)

           O Nei Ching descreve os 12 meridianos principais bilateralmente e 295 acupontos. Estes canais conduzem o Qi, substancia que é descrita em parte como um produto do corpo, parte como produto do ambiente. Os meridianos ou Jing relacionam-se com os 11 orgãos internos: os cinco zang eram o coração, o fígado, o baço, os pulmões e os rins e os seis fu eram vesícula biliar, o estomago, o intestino grosso, o intestino delgado, a bexiga e o triplo aquecedor uma entidade não física ligada a uma grande variedade de funções corporais. A principal forma de diagnostico proposta era o exame do pulso modernamente denominado  de “pulsologia chinesa”. Ilza Veith no seu estudo do Nei Ching comenta:

 

“ O principal meio de diagnostico empregado no Nei Ching é o exame do pulso. Todos os outros métodos de determinar as doenças são somente subsidiários a palpação e utilizados principalmente em conexão com ela. A teoria do pulso é baseado sobre os vários estágios de interação entre o Yin-Yang e sobre as crasias e discrasias dos cinco elementos. O correto equilíbrio do Yin-Yang e a mistura harmoniosa dos elementos leva a saúde; a falta de equilíbrio e a desarmonia causa doença. O sistema de palpação proposto pelo Nei Ching, acreditava-se ser eficaz no diagnóstico da natureza e localização de qualquer tipo de doença. A base da sua prática era a crença que o pulso consistia na verdade de seis pulsos, três conjuntos de pulsos em cada mão, cada um conectado com uma parte do corpo em particular, e capaz de registrar a menor alteração patológica no corpo.” (Veith, 1972: 42)

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

O NAN CHING: UMA EVOLUÇÃO NA PRÁTICA DA ACUPUNTURA

O nome Nan Ching foi traduzido como “Um Clássico Sobre Questões Difíceis”. Atualmente a maioria dos pesquisadores afirma que o livro tenha sido compilado entre os séculos I e II da nossa era. Citamos as palavras de Unschuld na sua tradução do clássico

“…eu tenho me referido ao Nan Ching como um trabalho do primeiro ou início do segundo século D C; pode inclusive ter sido escrito uma poucas décadas anterior ao primeiro século D C. Eu concordo com a opinião que o Shan Han Lun foi influenciado pelo Nan Ching, e eu concordo com aqueles comentadores que viram uma significante lacuna entre a linguagem e os conceitos utilizados no Nan Ching e aqueles encontrados no Nei Ching, uma lacuna que sinaliza desenvolvimento assim como diferença. Eu estou convencido que o Nan Ching foi compilado para superar a heterogeneidade e a natureza não sistemática dos conceitos das escolas médicas do Huang Chi Nei Ching, e especialmente para desenhar as conseqüências conceituais e clínicas da descoberta da circulação da influência-vapor no organismo. Em minha opinião os textos do Nei Ching sobre agulhamento e diagnóstico revelam um estágio de desenvolvimento que é maior que aquele dos textos desenterrados das tumbas de Ma Wan Dui (168 A C) e também maior que aqueles indicados na biografia de Shun-yu I (216 a 150 A C) no Shih-chi ( compilado em 90 A C ). Logo os textos do Nei Ching não podem ter sido compilados antes do segundo ou primeiro século A C ….O Nan Ching, então deve ter sido escrito após o aparecimento dos textos do Nei Ching sobre agulhamento e diagnóstico pelos meridianos, e antes do aparecimento do Shang- Han Lun no segundo século …” ( Unschuld, 1986:34)

Os capítulos do Nan Ching são dispostos de maneira variada e não existe um consenso dos historiadores da Medicina Chinesa sobre o autor do livro. O Nan Ching é considerado uma evolução do Nei Ching através do amadurecimento da medicina de correspondência sistemática onde os aspectos da prática médica são integrados nas doutrinas do Yin-Yang e das Cinco Fases ou Elementos. Sobre a contribuição do Nan Ching para o desenvolvimento da Medicina Chinesa; Birch e Felt afirmam:

“Embora as farmacoterapias tradicionais chinesas não estivessem ainda integradas dentro do paradigma do Qi até o século XII, o Nan Ching marca um momento em que toda a heterogeneidade do Nei Ching já havia se dissipado. As pedras preciosas das idéias já estavam selecionadas, lapidadas e reluzentes e, mesmo que o acabamento não estivesse totalmente concluído, a extensão e o valor deste tesouro eram claros. Embora muitos termos do Nei Ching ainda permaneçam, são usados de forma diferente. Nota-se a completa ausência da demonologia e da magia. Semelhante ao Nei Ching a acupuntura é a prescrição principal adotada, ou melhor é a única forma adotada como tratamento. Só que  aqui se abre um novo caminho: a escolha dos acupontos baseia-se na sistematização  do conceito da circulação do Qi.” (Birch e Felt, 2002: 23)

O desconhecido autor do Nan Ching sistematizou uma imagem do organismo humano. Este sistema está conectado internamente por meio de influências que se comportam de acordo com os princípios do Yin-Yang e das 5 Fases  desta forma propiciam uma infinita variedade de opções terapêuticas, que são selecionadas por um método racional de diagnóstico: a palpação do pulso ou pulsologia chinesa que permite investigar todos os dados importantes para formar uma imagem mental do estado do paciente e seus desequilíbrios. Depois do Nan Ching a medicina se libertou das influências da religião ou seja abraçou o pensamento que o ser humano está conectado com a natureza através do eterno fluxo do Qi.

   

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

Fitoterapia Chinesa

A Medicina Interna Chinesa utiliza medicamentos de origem mineral, animal e vegetal. Na fitoterapia apenas estes últimos são utilizados, ou seja, os remédios são a base de plantas medicinais. Esta abordagem de tratamento vem sendo utilizada na China há muitas centenas de anos de forma ininterrupta. Modernamente muitas pesquisas com fitoterapia vem sendo desenvolvidas na China demonstrando sua eficácia terapêutica associada a baixa frequência de efeitos colaterais.

  Na fitoterapia chinesa encontramos 2 teorias fundamentais; os sabores e a natureza das ervas medicinais:

  1. Os 5 sabores: Estes se relacionam com o tipo de ação nos órgãos internos e com os 5 Movimentos:
  1. Acido: ação harmonizante e de transformação, relaciona-se ao Movimento Madeira e ao órgão fígado.  
  2. Amargo: ação reagrupante com tendência centrípeta, relaciona-se ao Movimento Fogo e órgão coração
  3. Adocicado: ação tonificante e suavizante, relaciona-se ao Movimento Terra e órgão baço.
  4. Picante: ação dispersante, relaciona-se ao Movimento Metal e órgão pulmão.
  5. Salgado: ação mobilizante e tendência ascendente, relaciona-se ao Movimento Agua e órgão rim
  1. As 5 Naturezas energéticas:
  1. Ervas frias: são de natureza muito Yin com ação fortemente refrigerante
  2. Ervas refrescantes: são de natureza moderadamente Yin e pouco refrescantes
  3. Ervas neutras: são aquelas que apresentam equilíbrio entre o Yin e Yang.  Elas nem aquecem nem resfriam
  4. Ervas quentes: são aquelas de natureza muito Yang com ação fortemente calorificante
  5. Ervas amornantes: são aquelas moderadamente Yang e pouco calorificante

Na Medicina Oriental existe uma teoria que afirma “semelhante aumenta semelhante”. Logo nas síndromes de calor ou Yang utilizamos plantas frias e frescas, já nas síndromes de frio ou Yin utilizamos plantas quentes ou mornas

A eficácia do tratamento também depende do uso e indicação correta da parte do  vegetal:

  1. Raiz: absorve os nutrientes e água do meio, tem uma função tônica do baço e rins. Exemplo; a raiz de ginseng que é um tônico do Qi e baço
  2. Caule: serve para ascender a seiva e sustentar o vegetal. O caule simbolicamente relaciona-se com o fígado por suas funções ascendentes e carminativas. Exemplo: casca de canela com função amornante, estimula a circulação de Qi e Xue (energia e sangue)e ascendo o Qi do baço
  3. Folhas: tem função associada com a respiração do vegetal, por isto estão relacionadas ao pulmão. Exemplo: folhas de capim limão (Cymbopogum citratus) são usadas como sudorificas para retirar fator patogênico ( Xie Qi) do exterior e do pulmão
  4. Flores: abrem-se para o exterior do vegetal o que é um movimento de expansão  e a parte alta relaciona-se com o Yang e por analogia com o órgão coração. Exemplo: camomila que é uma planta que acalma o Shen (espirito) que relaciona-se ao órgão coração
  5. Fruto: é o involucro da semente que atua nutrindo-a. Apresenta movimento dscendente ao cair no solo. Por este motivo, semelhante a raiz, relaciona-se com o baço e o rim. Exemplo: tamara chinesa ( Ziziphus jujubae)  como tônico do baço e o Fructus Cornii ( Cornus officinalis) como tônico do rim
  6. Semente: contem energia ancestral e o potencial de germinação, crescer e ascender. Por isto simbolizam o rim e sua energia Yang. Exemplo:  semente de gergelim preto tonifica o Qi do rim

Abaixo colocamos uma classificação das plantas medicinais segundo sua ação:

  1. Ervas sudorificas que eliminam condições externas: são usadas por invasão  de energias perversas ( Xie Qi), como frio, calor e umidade
  1. Ervas sudorificas amornantes: usadas para síndromes externas por frio, como exemplo podemos citar: gengibre fresco e folhas de canela
  2. Ervas sudorificas refrescantes: utilizadas para síndromes de calor externo. Podemos citar como exemplo: a menta e a bardana
  1. Ervas que transformam a fleuma e aliviam tosse e falta de ar: a fleuma é o espessamento dos fluidos corporais com formação de mucosidades.
  1. Ervas que transformam a fleuma-frio:  quando a mucosidade esta associada ao frio. Como exemplo citamos: mostarda branca e nabo selvagem
  2. Ervas que transformam a fleuma-calor:  usadas quando há associação e mucosidades com quadro de calor. Podemos citar: raspa de caule de bambu e alga kombu
  3. Ervas que aliviam a tosse e a falta de ar: no caso de mais tosse e falta de ar e menos mucosidades estas eravas são utilizadas. Citamos como exemplo: semente de damasco e folha de nespereira
  1. Ervas que eliminam calor: são purificadores do calor, ou seja, quadros onde há febre e sinais de aquecimento do corpo com vermelhidão.
  1. Ervas que eliminam o calor interno: são plantas refrescantes, utilizadas nas síndromes de calor interno por excesso de Yang.  Como exemplo citamos jasmim-do-cabo ( Gardenia jasminoide ) e mata-pasto ( Cassia tora)
  2. Ervas que tiram calor do sangue: são plantas com atividade refrescante que beneficiam o sangue ( Xue) e sua circulação. Como mo exemplo citamos  casca da raiz da paeonia arbórea (Paeonia suffruticosa)
  3. Ervas que clareia calor e umidade:  são plantas que refrescam o calor mas também drenam umidade com uma ação diurética.. Como exemplo citamos a pulsatila chinesa ( Pulsatila chinensis)
  4. Ervas que tiram calor e eliminam toxinas: são plantas refrescantes e anti-toxicas. As toxinas são substancias deletérias produzidas pela ação do calor. Como exemplo citamos o dente de leão ( Taraxacum officinale)
  5. E Ervas que drenam o calor de verão: são plantas que tem indicação no caso de exposição ao calor de verão que pode ter relação com umidade. Como exemplo citamos a folha do lótus ( Nelumbu nucifera)
  1. Ervas anti-reumaticas que eliminam vento e umidade  (Xie Qi): São plantas que desbloqieam os canais. Como exemplo citamos a amoreira branca ( Morus alba)
  2. Ervas que aquecem o interior e expulsam o frio: são plantas indicadas nos quadros de frio interno ( Yin). Citamos o gengibre seco ( Zingiber officinale) e a casca da canela ( Cinnamomum cassia)
  3. Ervas que drenam umidade:  são plantas com ação diurética usadas no caso de edemas. Como exemplo temos o cabelo de milho ( Zea mays)
  4. Ervas aromáticas que transformam a umidade: estas plantas promovem a transformação do liquido acumulado que é reincorporado pelo corpo. Como exemplo temos o cardamomo ( Amomum cardamomum)
  5. Ervas que aliviam a estagnação alimentar: estas plantas atuam no sistema baço-pancreas- estomago promovendo o transporte e transformação dos alimentos. Como exemplo citamos a cevada germinada (Hordeum vulgare)
  6. Ervas que drenam por via baixa: são plantas que auxiliam na eliminação do “Qi Turbido”, ou seja, as fezes e urina. São de 3 tipos:
  1. Laxativos suaves: são plantas que umedecem os intestinos  e indicadas nos casos de constipação por deficiência de Qi. Como exemplo temos a ameixeira japonesa ( Prunus japônica)
  2. Ervas que purgam o calor: são plantas indicadas quando a constipação é por excesso com acumulo de calor e Qi túrbido nas vísceras. Como exemplo citamos a babosa (Aloe vera)
  3. Purgativos fortes: são plantas usadas em casos graves de excesso com acumulo do fluido túrbido no corpo sob a forma de água patogenica. Citamos como exemplo a fitolaca ( Phytolaca aciosa)
  1. Ervas que promovem a circulação de Qi: são as plantas que fazem o Qi circular e aliviam estagnação nos canais. Citamos como exemplos a tiririca ( Cyperus rotundus) e a laranja da terra verde ( Citrus aurantium)
  2. Ervas que regulam o sangue ( Xue). Aqui temos dois grupos de plantas:
  1. Ervas que promovem circulação do sangue ( Xue): são plantas que ativam o sangue e previnem estagnação. Citamos como exemplo o açafrão da terra (Curcuma longa) semente de pêssego (Prunus persicae)
  2. Ervas hemoestatica: são plantas que param as hemorragias. Citamos os nódulos da raiz do lótus ( Nelumbo nucifera)
  1. Ervas aromáticas que abrem orifícios: são plantas que atuam transformando a fleuma que obstrui os orifícios da cabeça promovendo uma melhora na função do Shen (espirito). Citamos a canfora ( Cinamomum canfora) como exemplo
  2. Medicamentos tranquilizantes. Aqui temos 2 grupos de plantas:
  1. Medicamentos que acalmam o Shen ( espirito):  são substancias ricas em sais minerais.  Citamos a perola ( Pteria martensii)
  2. Ervas que nutrem o coração e acalmam a mente: são plantas tônicas do sangue ( Xue) do coração e sedativas. Como exemplo citamos a valeriana ( Valeriana officinalis)
  1. Medicamentos anticonvulsivamntes:  são remédios de origem animal que são empregados para vento interno ( vento do fígado). Citamos o chifre de antílope ( Saiga tartárica) e o escorpião ( Buithus martensii)
  2. Ervas tônicas do Qi e Xue ( sangue). São  divididas em 2 grupos:
  1. Ervas tônicas do Qi: são plantas que promovem a energia do corpo. Como exemplo citamos o alcaçuz (Glycyrriza glabra) e o ginseng ( Panax ginseng)
  2. Ervas tônicas do Xue ( sangue): são plantas com qualidades nutridoras que reforçam o Xue ( sangue). Como exemplo citamos a peônia branca ( Paeonia albiflora) e o fruto da amoreira branca (Morus alba)
  1. Ervas tônicas do Yin e Yang. Divide-se em 2 grupos:
  1. Ervas tônicas do Yin: são plantas nutridoras e refrescantes. Como exemplo citamos a raiz do aspargo chinês ( Asparagus cochinchinensis) e o selo de Salomao ( Polygonatum odoratum)
  2. Ervas tônicas do Yang: são plantas tônicas e amornantes. Como exemplo citamos o feno grego ( Trigonella foenum graecum) e a semente de nogueira ( Juglans regia)
  1. Ervas adstringentes que previnem perdas:  as perdas são o excesso de saída de substancias vitais através da sudorese, diarreias, ejaculação no homem e corrimento na mulher. Citamos a noz moscada ( Myristica fragrans) e capsula do fruto da papoula ( Papaver somniferum)
  2. Ervas que expelem parasitas: são plantas com propriedades anti-helminticas. São utilizadas nas parasitoses. Citamos o alho ( Allium sativum), semente de abobora ( Curcubita pepo) e semente de cenoura selvagem ( Daucus carotae)
  3. Medicamentos para uso externo: são remédios antissépticos e cicatrizantes. Citamos o ninho de vespa ( Polistes mandarinus) e o enxofre ( Sulphur)

A Medicina Interna Chinesa é uma especialidade da Medicina Tradicional Chinesa e atualmente, na China, o profissional estuda pelo menos 5 anos em uma faculdade para se tornar um especialista nesta área. A Fitoterapia Chinesa, como já dissemos, é parte desta racionalidade médica oriental e o leitor que tiver interesse neste tratamento deve buscar um profissional que tenha conhecimento e experiência em plantas medicinais. A auto medicação deve ser evitada pois como todo medicamento as ervas tem indicações, contra-indicações, dose terapêutica e feitos adversos que foram descritos na literatura especializada.

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

A TRADIÇÃO CHINESA

  CAPITULO I : A   TRADIÇÃO   CHINESA

A  história da medicina chinesa começa em tempos pré-históricos com o mito: a lenda do Imperador Amarelo, Huang Ti, que reinava na região central da China ( Hoizey ; A History of Chinese Medicine) e o seu rival o Imperador do Fogo que comandava as terras ao sul da China. Conta a lenda que o Imperador do Fogo tinha o poder de, ao provar uma planta, determinar a natureza desta planta e também é creditado a ele o ensino do cultivo dos  cereais , de onde vem o seu titulo de fazendeiro divino, Shen Nung.

Shen Nung e Huang Ti são personagens lendários da Medicina Chinesa e ambos deram seus nomes a dois grandes clássicos : o Huang Ti Nei Ching ( O Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo) e o Shen Nung Pen-Tsao Ching ( O Clássico da Medicina Herbácea ).

A   DINASTIA   ZHOU

A dinastia Zhou é dividida em: Western Zhou do XI  século A.C. ao ano 771 A.C. e a Eastern Zhou que vai de 770 A .C. a 221 A .C..( A Concise History of China , Bozan, Xunzheng e Hua). A dinastia Zhou, como muitas que a sucederam, estabeleceu-se por meio da conquista sobre a dinastia anterior os Shang ( 1523 a 1027 A.C. ) esta era foi considerada a idade clássica do bronze  na China ( Entendendo a Acupuntura, Birch e Felt).

 A familia Zhou conseguiu consolidar o seu poder sobre os Shang, dinastia anterior que reinou do século XVII A.C.. ao século XI  A. C., com ajuda de nobres dissidentes dos Shang. Esta conquista dos Zhou  teve suas raízes na falha da dinastia anterior em guardar seus territórios adequadamente e também na superioridade agrícola dos Zhou sobre os Shang.

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Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

 

 

 

A ESCOLA DO YIN–YANG

 A teoria do Yin-Yang é tão antiga que muitas vezes confunde-se com a história da própria China. É difícil precisar exatamente quando surgiu pela primeira vez este pensamento, porém  Marcel Granet em “O Pensamento Chinês” relaciona as primeiras referências ao Yin-Yang  ao I-Ching:

“Não surpreende, portanto, constatar (levemos em conta aqui os acasos que regeram a conservação dos documentos) que as mais antigas exposições  conhecidas sobre o Yin-Yang estão contidas no Hi Zi, pequeno tratado anexado ao I Ching (o único manual de adivinhação que não se perdeu). Tampouco surpreende que o autor do Hi Zi fale do Yin-Yang sem pensar em dar uma definição deles. Na verdade basta lê-lo sem preconceitos para perceber que ele procede por alusão a idéias conhecidas. Veremos, inclusive, que o único aforismo contendo as palavras Yin e Yang em que podemos adivinhar a ideia que ele fazia destes símbolos aparece como uma fórmula pronta, um verdadeiro adágio: aliás, é nesse fato que reside a única possibilidade que nos é dada de conseguir interpretar este aforismo.

“Uma (vez) Yin, uma (vez) Yang ( yi Yin yi Yang), nisso está o Tao”, escreve o Hi Zi. Todo este adágio tem que ser adivinhado. A tradução mais literal corre o risco de falsear-lhe o sentido. A que acabo de fornecer já é tendenciosa sugere a interpretação: “um tempo de Yin, um tempo de Yang…” Sem dúvida existe a possibilidade de que o autor preocupado com a adivinhação encare as coisas do ponto de vista do tempo; entretanto, tomada em si, a fórmula poderia igualmente ler-se: “um ( lado) Yin, um (lado) Yang…” (Granet, 1997: 85)

O I Ching, livro das mutações, seria a referência mais antiga a teoria do Yin-Yang mas quando surgiu este antigo “oráculo chinês”, que foi dividido em 64 hexagramas  Richard Wihelm afirma:

“Segundo a tradição geralmente aceita, sobre a qual não temos motivo para levantar suspeitas, a atual compilação dos sessenta e quatro hexagramas teve sua origem com o Rei Wen, antecessor da dinastia Zhou. Diz-se que ele acrescentou breves julgamentos aos hexagramas durante o período que estava aprisionado por ordem do tirano Chou Hsin. O texto relativo as linhas foi redigido por seu filho, o Duque de Chou. Sob esta forma, com o título de “As Mutações de Chou”( Chou I ) foi usado como oráculo durante o período da dinastia Zhou como demonstram vários antigos registros históricos.” (Wilhem, 1983:11)

Apesar de Wilhelm colocar o I-Ching na época anterior a dinastia Zhou, Alaíde Mutzenbecher em seu trabalho sobre o I-Ching vai além:

“Composto apenas de duas forças, opostas e complementares, reconhecidas como primordiais desde o assentamento dos primeiros grupos tribais as margens do Rio Amarelo, no alvorecer da civilização chinesa, o fluxo do Yin-Yang admiravelmente sintetizado nas seis linhas ou etapas de cada hexagrama se constituía então dos traços impressos nas carapaças das tartarugas ou nos ossos dos animais. Impossível iniciar uma data que os chineses iniciaram a captação desta dinâmica energética. O par de forças inaugurais nas suas concatenadas variações, forma uma totalidade de possibilidades ( 8 x 8 ) resultando nos 64 hexagramas. Configura as energias vigentes entre céu e terra, codificadas apenas por linhas, em que as inteiras são denominadas Yang ______ e as partidas Yin ____ bem como todas as composições delas decorrentes. Tudo se resume em última instância, a malha de conexões dos pólos positivo e negativo, em todas as suas variações possíveis. Este foi também o texto fundador das ciências e das artes chinesas, incluindo as percepções das vibrações do corpo humano, ressaltadas na sua medicina, e dos espaços e construções habitados, enfatizadas no Feng Shui. Este mesmo fluxo energético constitui as bases da caligrafia a da pintura chinesa, e de todas as artes marciais do oriente. As implicações das mútuas repercussões dos pólos positivo Yang e negativo Yin constam das ciências mais modernas, pois se evidenciam na dinâmica da eletricidade e dos computadores, para citar apenas dois exemplos.“ (Mutzenbecher, 2002: 12 e 13)

Originalmente os ideogramas que representavam o Yin e o Yang significavam o lado escuro e o lado claro de uma montanha respectivamente. No Shih-Ching, uma coleção de canções populares do primeiro milênio a.C. faz a seguinte associação:

“O Yin está associado aqui com o frio, nublado, chuva, feminino, dentro e escuridão, enquanto o Yang simboliza uma linha de correspondência associada com: o brilho do sol, calor, primavera, verão e masculino.” (Unshuld,1985:55)

Na doutrina do Yin-Yang os termos Yin e Yang não apresentam nenhum significado específico, eles funcionam como símbolos utilizados para caracterizar duas linhas de correspondência. No Zouzhuan, comentário de Zou, uma crônica do período Zhou atribuída A Yi He, que teria vivido por volta do ano 540 A C observamos a aplicação da teoria do Yin-Yang a medicina:

“As seis influências são yin, yang, o vento, a chuva, a escuridão e a luz… um excesso de yin causa calafrios; um excesso de yang causa febre, um excesso de vento causa enfermidades nos membros; um excesso de chuva causa enfermidade no estômago; um excesso de escuridão afeta a mente; um excesso de luz afeta os sentimentos.”(Hoize e Hoize, 1993: 88)

Nesta afirmação de Yi He, médico durante a dinastia Zhou, observamos a importante utilização da medicina de correspondência sistemática aplicada as mudanças climáticas e a teoria do Yin-Yang. Yin Hui He e Zhang Bai Ne resumem a lei da oposição e restrição do Yin-Yang no seguinte parágrafo:

“A teoria do Yin e do Yang considera que qualquer objeto ou qualquer manifestação do mundo material está incluso no antagonismo complementar dos dois aspectos Yin e Yang, como o em cima e o embaixo, a direita e a esquerda, o céu e a terra,o movimento e o repouso, a saída e a entrada, o dia e a noite, o claro e o escuro, o frio e o quente, a água e o fogo etc. O Yin e o Yang enquanto antagônicos formam uma unidade que é por sua vez resultado deste antagonismo. Em outras palavras o antagonismo entre os dois em um aspecto de oposição e a unidade dos dois tem aspecto da complementaridade. Se não há antagonismo, não há unidade. Se não há oposição, também não há complementaridade. A principal manifestação característica do antagonismo complementar entre Yin e Yang é a mútua restrição. O resultado é que o Yin e o Yang alcançam a unidade no equilíbrio dinâmico denominado: o Yin floresce suavemente e o Yang estimula firmemente. Nas variações climáticas entre o morno, o calor, o fresco e o frio das quatro estações, o morno e o calor da primavera e do verão acontecem enquanto a energia Yang aumenta gradativamente, inibindo a energia fria e fresca do outono e inverno. O frio e fresco do outono e inverno acontecem enquanto a energia Yin aumenta gradativamente, inibindo a energia quente e morna da primavera e do verão. Isto é o resultado da mútua inibição e do equilíbrio dinâmico existente entre o Yin e o Yang da natureza.”  ( He e Ne, 1999: 19)

Esta colocação de Yin Hui He e Zhang Bai Ne resume a alternância e a complementaridade do Yin-Yang na natureza. Mas a medicina de correspondência sistemática utilizou, principalmente a partir do século V A C, a teoria do Yin-Yang aplicada as enfermidades. Com relação a aplicação do Yin-Yang a medicina Maciocia afirma:

“Poder-se-ia dizer que a Medicina Chinesa como um todo, sua fisiologia, patologia, diagnóstico, e tratamento, podem ser reduzidos a teoria básica e fundamental do Yin e do Yang. Todo processo fisiológico e todo sintoma ou sinal podem ser analisados sob a ótica da teoria do Yin-Yang. Cada parte do corpo humano apresenta um caráter predominantemente Yin ou Yang, muito importante na prática clínica. Deve-se enfatizar todavia que este caráter é somente relativo. Por exemplo, a área torácica é Yang em relação ao abdome (por ser mais alta), mas Yin em relação a cabeça.

Os caracteres Yin e Yang das estruturas corporais  são :                

Yang                                                       Yin

Superior                                                  Inferior

Exterior                                                   Interior

Superfície póstero-lateral            Superfície antero-medial

Costas                                                       Frente

Função                                                      Estrutura

Cabeça                                                     Corpo

Exterior (pele-músculos)               Interior ( órgãos )

Acima da cintura                                Abaixo da cintura

Função dos órgãos                             Estrutura dos órgãos

Qi                                                                 Sangue”

(Maciocia, 1996:9) 

 

A medicina de correspondência sistemática apresenta além da teoria do Yin-Yang mais três conceitos que são fundamentais dentro do seu desenvolvimento como uma racionalidade médica: As 5 fases , também chamadas de 5 elementos ou movimentos ( wu xing ), a teoria do Qi e os meridianos chineses ( jing luo ). Iremos analisar cada uma destas teorias que compõem a racionalidade médica chinesa nos primórdios de seu desenvolvimento histórico.

 

A DINASTIA QIN

A   DINASTIA  QIN: O IMPERADOR SANGUINÁRIO

 

    A dinastia Zhou que reinou de 1027 a 221 A C foi substituída pela dinastia Qin que foi caracterizada pulo uso da força e da violência durante o período de 221 a 206 A C. No início o futuro imperador dos Qin, Shi Huang Di, conquistou vários estados, Han, Zhao, Wei, Chu, Yan, e Qi e promoveu a unificação da China pela primeira vez em sua história. O governante dos Qin, então, substituiu a elite feudal e apropriou-se de suas terras declarando-se imperador da China.

     O poeta Li Bai, do século VIII da nossa era, descreveu em um verso memorável as ações do primeiro Imperador que unificou a China em 221 A C:

 

        “ The Qin ruler`s reach extend to the six directions.

           A fierce overlord with the look of a tiger,

           With his brandished sword he cleaves asunder

                the floating clouds.

           Princes come one after the other to the west

           To bow before him…( Li Bai em Hoize e Hoize, 1993:34)

 

     O soberano fez profundas modificações na política do estado. Shi Huang Ti era guiado pela filosofia legalista cujo o objetivo era a aquisição de riqueza e poder. Nesta época o poder e o bem, a riqueza e a justiça eram equiparados. Birch e Felt afirmam:

 

“O antigo código de normas centralizado nos antepassados do período feudal foi irrevogavelmente substituído pelo único objetivo de quem ganha leva tudo.” (Birch e Felt, 2002: 14)

 

    Com o objetivo de consolidar o seu novo regime, Shi Huang Di, confiscou e destruiu  todas as armas do povo. Além disto baniu dos seus domínios nobres e ricos e ordenou que 120.000 famílias se mudassem para a nova capital Xianyan, acabando com a longa tradição da China de pequenas cidades auto-suficientes.

     Na sua ganância pelo poder, Shi Huang Ti, realizou em 213 A C a queima pública de toda a literatura, com exceção dos livros de medicina, farmacologia, oráculos, agricultura e silvicultura. Cerca de 460 eruditos foram queimados, vivos em grupo, como aviso aos outros. O primeiro imperador e seu sucessor foram verdadeiros ditadores que governaram a China com mão de ferro. Bozan, Xunzheng e Hua em “ A Concise History of China” afirmam:

“Eles forçaram 300.000 homens a construir a Grande Muralha e enviaram 500.000 para guarnecer Lingnan (Guangdong). Um adicional de 700.000 homens foram utilizados para construir palácios e um igual número para construir o mausoléu de Shi Huang Di e inumeráveis mais foram recrutados para construir estradas. Como resultado, os impostos e os trabalhos forçados tornaram-se tão onerosos que os camponeses não tinham tempo para cultivar os seus próprios campos e suas mulheres não tinham tempo para fiar e tecer. Foi literalmente impossível para os camponeses existir  sob este fardo. O inevitável aconteceu. Em 209 A C os camponeses liderados por Chen Sheng e Wu Guang levantaram-se em revolta. Armados apenas com enxadas e porretes eles destruíram o domínio da dinastia Qin.” ( Bozan, 1986:21)                        

     Um evento importante, durante a dinastia Qin, sugere a possibilidade de contato entre a China e a Índia antes da dinastia Han. Nas palavras de Svoboda e Lade:

“ Em algum ponto entre os séculos III ou IV A C, ocorreu um fato histórico importante que confirma sem sombra de dúvida que essas duas sociedades estiveram realmente em contato uma com a outra. Nessa época a Índia já possuía uma cultura literária altamente desenvolvida, que havia produzido montanhas de textos sobre tópicos como religião, astrologia e medicina. O preeminente texto ayurvédico Charaka Samhita já tinha muitos séculos de existência, enquanto o importantíssimo Clássico Interno do Imperador Amarelo só então era compilado na China. Durante este período começaram a circular na China relatos sobre o soma, planta psicotrópica associada a experiências místicas que ocupara lugar de destaque na religião indiana primitiva. No contexto indiano, sabe-se que o uso do soma desempenhou papel central no Rig Veda, uma escritura que apareceu antes do ano 1000 A C.”  ( Svoboda e Lade, 1995: 80)

  O imperador Shi Huang Di estava assustado com a ideia da morte. De acordo com o texto histórico Shi Ji, do primeiro século A C, ele buscou o elixir dos imortais e para isso ele enviou o Shaman  Su Fu para encontrar os imortais. No Shi Ji encontramos:

“Su Fu foi enviado junto com as filhas de Qin. Quem pode dizer quando seu barco retornara…” ( Hoizey e Hoizey, 1993:36)

    O primeiro imperador estava obcecado com a idéia da imortalidade, e  enviou Su fu para encontrar o soma,  planta sagrada dos Vedas Hindus, que teria propriedades mágicas. No seu trabalho “Tao e Dharma, Chinese Medicine and Ayurveda” Svoboda e Lade afirmam:

“Divulgou-se na China que o soma tinha o poder de conferir imortalidade, e os relatos persistentes e sedutores acabaram levando o imperador Qin Shi (que reinou entre 221 e 207 A C), primeiro soberano de uma China unificada, a ordenar a procura desta planta maravilhosa. No final, o próprio imperador foi as montanhas ocidentais em uma busca infrutífera. Apesar desta fracasso, o imperador se recusou a desistir, e aparentemente deu permissão e apoio a um homem peculiar chamado Su Fu, que foi enviado numa viagem marítima com um grande contingente de crianças consagradas e a missão de voltar com a substância divina A primeira jornada não obteve sucesso, mas Su Fu retornou a China, foi reequipado e enviado novamente, porém nada mais se sabe a respeito dessa segunda missão” (Svoboda e Lade, 1995: 80)

                 O período curto da dinastia Qin (221 a 206 A C), formulou importantes modificações na estrutura sócio-econômica da China como a padronização da moeda, pesos e medidas, da escrita chinesa e imposição aos súditos da construção de um sistema de transportes. Inadvertidamente o ditador Shi Huang Di deixou um legado que permitiu  o desenvolvimento de um dos períodos mais reverenciados da história da China: A Dinastia Han, uma dinastia de mais de 400 anos com uma importância histórica fundamental para a nossa pesquisa pois foi quando surgiram os principais trabalhos da medicina de correspondência sistemática e da acupuntura.

A DINASTIA HAN: OS PRIMEIROS TEXTOS DE ACUPUNTURA

A dinastia Han teve início em 206 A C após a derrubada dos Qin pelos camponeses e prolongou-se até 220 da nossa era. O fundador da dinastia Han, Gao Zu, não esqueceu a sua origem humilde ao formar um governo considerado um dos mais responsáveis da história chinesa; ele moderou a severidade do governo dos Qin, diminuiu os impostos e atenuou o controle feito pelo governo sem deixar de manter sua organização.

Os chineses apontam esta era como sendo um período de extrema realização cultural digna de exaltação. Durante este período, a cultura chinesa, incluindo a medicina cresceram com uma velocidade espantosa, foram os quatro séculos de maior importância para a Medicina Chinesa. Birch e Felt no interessante trabalho “Entendendo a Acupuntura” colocam as principais razões que levaram a este período de mudanças:

“A forma de governo severa dos Qin fizera desaparecer as instituições e as forças sociais que poderiam se opor as mudanças, purificando e tornando o solo fértil para a germinação e frutificação das inovações, para as explorações e invenções. Não foram somente as barreiras culturais que foram eliminadas: a sociedade e a economia chinesas estavam geofisicamente mais acessíveis entre si. Estradas e canais ligavam antigas cidades amplamente autônomas e todas as classes da sociedade beneficiadas pela riqueza crescente que tinha origem no comércio e pela independência econômica estabelecida. Por muito pouco a corte e os ricos conseguiam obter mercadorias estrangeiras. Os lordes feudais não mais controlavam a vida social e religiosa e surgiu uma classe educada que sobrevivia independente  da riqueza ou de patronatos.”(Birch e Felt, 2002: 15)

 

Um possível impulso para este crescimento cultural teria sido o contato com regiões     ao ocidente da China. O intercâmbio de idéias e teorias poderia ter impulsionado o desenvolvimento da Medicina Chinesa. Sabemos que foi durante a dinastia Han que o budismo foi introduzido na China proveniente da Índia junto com o budismo vieram teorias da Medicina praticada na Índia naquela época.

No período do reinado do imperador Wu Di durante a chamada “Western Han Dynasty” ( 206 A C a 24 D C) a China estava em guerra contra reinos do nordeste comandados por Xuong Nu. Em 138 A C o imperador Wu Di enviou Zhang Qian para regiões ao ocidente que descobriu muitos países  ricos no distante ocidente. Bozan, Xunzheng e Hua afirmam:

“ A história começa com a tomada por Xuong Nu de vários pequenos estados nas regiões ocidentais. Em 138 A C Wu Di  enviou Zhang Qian ( ?-114 A C) para estas regiões. Zhang Qian descobriu que haviam muitos países prósperos e ricos no distante ocidente. Em 121 A C as tropas de “Western Han” abriram a rota através do corredor de Ganzu para as regiões ocidentais. Mais tarde com a cooperação do povo de Wu Sun, as tropas chinesas… conquistaram vários estados nas regiões ocidentais…Deste momento em diante comerciantes da China e Ásia central enviaram mercadorias chinesas, particularmente seda, para o ocidente distante:…Pérsia, Índia  e cidades do Império Romano. Destes paises eles traziam produtos para os governantes e pessoas da região central…” (Bozan, 86:25)

 

     Esta afirmação é ratificada por Svoboda e Lade:

“Historicamente a era da dinastia Han foi um período em que a atenção dos chineses se voltou para o exterior. Por volta de 138 A C, a Estrada da Seda para oeste e a Estrada da Birmânia (115 A C) para o sul havia aberto o comércio e o intercâmbio de idéias e tecnologias com terras estrangeiras. Na fronteira ocidental da China, além das montanhas Kun Lun, um ramo da Estrada da Seda rumava ao sul e conduzia a Índia. A China também embarcou em grandes navegações exploratórias para abrir rotas marítimas ao sul e ao leste. Ao final do século II A C, barcos da China Imperial haviam alcançado costas distantes do Oceano Índico, sendo referido como o litoral do atual Sri Lanka, na época em que a civilização e a religião indianas estavam se espalhando rapidamente.” ( Svoboda e Lade, 1995: 82)

A dinastia Han foi o período em que a medicina de correspondência sistemática atingiu a sua maioridade. Durante este período de quatro séculos, de II AC a II DC, foram escritos os principais trabalhos da Medicina Chinesa que iriam, sem sombra de dúvidas, influenciar o pensamento médico na China pelos próximos 2000 anos. Sobre este período de desenvolvimento do pensamento médico na China Birch e Felt colocam:

“ Não permanece claro como todos os aspectos da medicina de correspondência sistemática surgiram, também, não se deve deduzir pela nossa apresentação cronológica que este processo tenha ocorrido de forma equilibrada e ordenada. Por exemplo, enquanto o crédito da origem do conceito dos cinco elementos é dado a Zou Yan ( 350 a 270 A C), a concepção grega dos quatro elementos e a série indiana dos cinco elementos são produtos do ano 600 A C aproximadamente, e poderiam ser com justiça, os precursores da teoria chinesa dos cinco elementos.” (Birch e Felt, 2002: 16)

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

MA WANG DUI: O TEXTO MAIS ANTIGO SOBRE A MEDICINA CHINESA

     Em 1973 vários textos médicos foram encontrados nos túmulos de Ma Wang Dui de 168 A C ao sul da China no estado de Hunan, na capital Changsha, onde hoje encontra-se atualmente o Museu Provincial de Hunan. Estes antigos textos do século II A C, são anteriores ao Shih-chi de Ssu ma Ch`ien  e ao Huang Ti Nei Ching. Nas palavras de Unschuld:

“ Os textos de Ma Wang Dui são impressionantes devido ao amplo número de conceitos e técnicas registradas e recomendadas, incluindo: moxa-cauterização, feitiços orais, rituais mágicos, ginásticas, práticas sexuais, drogas, massagem, ventosas, banhos e fumigações baseados no paradigma da magia e correspondência sistemática, assim como conceitos demonológicos, presumivelmente, de experiências diretas. O uso de pedras pontudas é recomendado várias vezes para abrir abscessos e uma vez para aplicar pressão quente em hemorróidas. Moxabustão, isto é, a queima da planta Artemísia Vulgaris, sobre a pele é o único estímulo recomendado para estimular o conteúdo dos onze vasos. Nenhum ponto específico é sugerido para a aplicação deste tratamento…” (Unschuld, 1985: 93)

 

Um fato notável, de extrema importância, é a ausência de qualquer referência a acupuntura ou a descrição de pontos de acupuntura. Podemos concluir que a acupuntura, dentro da medicina de correspondência sistemática era desconhecida na China no século

III A C. É interessante notar que a China do início da dinastia Han, ou seja, século II A C, estava seguindo um curso semelhante ao da Grécia  três séculos antes. Os princípios da patologia, anatomia, e fisiologia estavam sendo descritas como disciplinas humanas distintas.

O professor e sinólogo Paul Uncshuld comenta:

“O que se distingue nas filosofias grega e chinesa emergentes na metade do último milênio A C , é a tentativa de explicar os fenômenos do mundo perceptível como ocorrências naturais, sem referências a forças misteriosas como deuses e antepassados.” (Unschuld, 1985: 55)

 Apesar de Unshuld colocar que não existe nenhuma fonte conhecida da acupuntura  na China anterior ao Shih Chi do ano 90 A C; um autor do século III A C, Han Fei, conta a história de um famoso medico Qin YueRen ( 407 a 310 A C), que ficou conhecido como Bian Que:

…”O Rei Huan notou que Bian Que evitou a sua presença, então o Rei enviou um servo para saber porque Bian Que tinha evitado a sua presença. Bian Que respondeu: Quando uma doença acomete a superficie do corpo uma loção ou uma compressa quente pode curá-la, quando uma doença afeta os músculos o uso de agulhas pode curá-la, quando uma doença afeta o intestino e o estômago uma decocção pode curá-la, mas quando uma doença ataca os ossos não há nada mais a ser feito mas deixar as coisas ao seu próprio destino. Desde que a doença do Rei atingiu os ossos eu não vejo nenhuma razão para recomendar que ele se cuide…” ( Hoizey e Hoizey, 1993:30)

               

 Nos “Registros do Grande Historiador”, Shih Chi de Ssu-ma Ch`ien de 90 A C, o mesmo Qin Yueren é classificado como um médico de grande reputação na sua época, século IV A C. Hoize e Hoize em seu trabalho“A History of Chinese Medicine” afirmam:  

“Na conclusão da biografia de Qin Yueren feita por Ssu-ma Ch`ien, o historiador enfatiza a reputação que Qin adquiriu nos campos da gineologia, pediatria, otorrinolaringologia, oftalmologia e mesmo psiquiatria. Qin afirma que um desequilíbrio do Yin-Yang era a principal causa das doenças, e seu método de diagnóstico, de acordo com Ssu-ma Ch`ien, contava com regras simples como: pegar o pulso, observar a compleição facial, ouvir as vibrações dos ruídos do corpo e questionar o paciente. Ele usava decocções e fomentações na cura dos pacientes assim como praticava acupuntura…”  ( Hoizey e Hoizey, 1993: 31)

Podemos observar que ambos os autores, Ssu-ma Ch`ien e Han Fei, afirmam que Qin Yeren utilizava a acupuntura em sua prática médica o que é negado por Unschuld ao colocar como a primeira referência a acupuntura a prática do médico Shun-yu I,descrita no Shi-chi, pelo próprio Ssu-ma Ch`ien. Neste antigo texto o médico Shun-yu I foi acusado de prática inadequada ao fazer uso da acupuntura e teve que defender-se:

“ Acupuntura é uma técnica que promove o movimento  do Qi através dos canais de transporte do corpo. Como tal está descrita pela primeira vez por Ssu-ma Ch`ien, no Shih-chi ( de 90 A C), através de um médico chamado Shun-Yu I. Este homem foi acusado de má prática, e pode-se inferir que a técnica que ele utilizou era desconhecida para aqueles que o acusaram e lhe pediram explicações. No curso de dois julgamentos, um em 167 A C e outro em 154 A C, Shun-yu I defendeu sua prática. Como sua biografia sugere, Shun-yu-I sabia sobre o fluxo de Qi no organismo, porém,o conceito de circulação não tinha surgido ainda. As agulhas de acupuntura, na opinião de Shun-yu I, eram adequadas para causar influências naquilo que tinha se movido, indevidamente, para cima no organismo descer novamente, e vice versa; para causar o fluxo para dentro e para fora do Qi; para afetar influências perversas, que entraram no organismo e reverter o movimento de influências contrárias ao seu próprio curso. Aparentemente, alguns pontos sobre a pele usados por Shun-yu I para inserir as agulhas ficam em reconhecidos canais de transporte, outros não.” (Unschuld, 1985: 92)

Segundo Unsculd esta seria a primeira vez na literatura que a acupuntura teria sido praticada de acordo com o pensamento da medicina de correspondência sistemática ou seja dentro do paradigma do Qi e da sua influência pelos acupontos. Provavelmente Unschuld não considerou a acupuntura de Qin Yeren como sendo uma prática dentro dos conceitos da medicina de correspondência sistemática apesar de anteceder em um período de  dois séculos a prática de Shun-yu I de acupuntura. Esta passagem histórica, de Qin Yeren também conhecido como Bian Que, é controversa pois não temos como explicar por que o Professor  Unschuld, considerado a maior autoridade em história da Medicina Chinesa, teria ignorado, nem mesmo comentado, nos seus trabalhos, a prática deste médico do século IV A C.         

Nos textos de Ma Wan Dui de 168 AC nós observamos onze meridianos, porém nenhuma referência a circulação do Qi, aos acupontos e a acupuntura. Então podemos inferir, pelos fatos históricos colocados por Unschuld, Hoize e Hoize, que existe um “elo perdido” na história da Medicina Chinesa na sua mudança de paradigma de uma medicina mágico-demonológica baseado no contato com o sobrenatural para a medicina de correspondência sistemática  com raízes na observação dos fenômenos naturais. As perguntas não respondidas são :

  1. Como surgiu a medicina de correspondências sistemática ?
  2. De onde veio a teoria do Qi e dos meridianos chineses?
  3. Como foi desenvolvida a acupuntura e os acupontos?

Estes questionamentos são fundamentais dentro desta pesquisa e podemos sugerir influências externas vindas de alguma cultura, talvez mais antiga e com os seus paradigmas já delimitados que tenham injetado novas idéias aos pensadores chineses. Novamente vamos buscar em Unschuld uma possível hipótese para responder estas questões:

“ Finalmente pode-se especular sobre um elemento estrangeiro o qual penetrou para fornecer o cataclismo para a fusão de todos estes elementos separados em frente a um fundo variado composto de ideais sócio-políticos, fatos sócio-econômicos e  raciocínio cosmológico. Liu Tun-yuan, o descobridor das esculturas da dinastia Han retratando Pien Ch`iao como um pássaro com cabeça humana, sugeriu que este pássaro poderia ter sido influenciado pelo mito do Gandharva indiano o qual de alguma maneira pode ter atingido a costa leste da China. Os Gandharvas, pássaros com cabeças do homens eram conhecidos na Índia desde os tempos védicos, eram tradicionalmente descritos como médicos habilidosos. Talvez  algum terapeuta adotou não apenas o disfarce de homem-pássaro  mas também uma técnica nova que veio com ele.” (Unschuld, 1985: 97)

Esta colocação de Unschuld é muito interessante pois nós sabemos que na segunda metade do primeiro milênio A C as idéias, filosofias e a prática médica na China estavam passando por um período de muitas transformações. Os escritos de Ma Wan Dui do século II AC, são um produto claro destas mudanças, pois, retratam um momento histórico em que tanto a medicina mágico-demonológica quanto os conceitos de correspondência sistemática estavam sendo utilizados pelos médicos e shamans. A possibilidade de uma influência externa no desenvolvimento do pensamento médico na China é uma hipótese que temos que considerar seriamente, visto que é fato histórico que as rotas comerciais com o ocidente, leia-se subcontinente indiano, foram abertas justamente neste momento de mudança, ou seja século II A C. Associado as trocas comerciais vêem as trocas de idéias e teorias que podem ter influenciado a construção do modelo da medicina de correspondência sistemática.

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

AS 5 FASES ou 5 MOVIMENTOS – WU XING

 

A teoria das 5 Fases, movimentos ou elementos (Wu Xing) junto com a teoria do Yin-Yang são as bases da medicina de correspondência sistemática que veio mudar o paradigma da saúde na China, principalmente a partir do século V a.C. Não estamos afirmando aqui que a medicina mágico-demonológica deixou de existir mas que os médicos do final da dinastia Zhou iniciaram um processo de buscar na natureza e seus fenômenos a causa das doenças e deixou-Se para os Shamans, que ainda estavam em franca atividade, as relações com o sobrenatural, ou seja com a magia, espíritos e demônios. O famoso escritor e acupunturista Giovanni Maciocia afirma:           

“Pode-se dizer que a Teoria dos Cinco Elementos e sua aplicação na medicina marcam o início do que nós podemos chamar de “medicina científica” e o início da partida do Shamanismo. Os curadores não mais procuravam uma causa sobrenatural para as patologias: agora eles observam a Natureza e, com uma combinação dos métodos indutivo e dedutivo, começam a achar os padrões dentro disto e, por extensão, os aplicam na interpretação das patologias.”  (Maciocia, 1996; 23)

O livro Shang Shu, é provavelmente a mais antiga referência aos Cinco Elementos, ou como prefere Ted  Kapchup ( Kapchup, 1983: 343) “As Cinco Fases”, que chegou aos nossos dias. Acredita-se que tenha sido escrito no período médio da dinastia Zhou  entre 659 a 627 A C:

“Os Cinco Elementos são: Água, Fogo, Madeira, Metal e Terra. A Água umedece em descendência, o Fogo chameja em ascendência, a Madeira pode ser dobrada e esticada, o Metal pode ser moldado e endurecido, a Terra permite a disseminação, o crescimento e a colheita.” (Maciocia, 1996: 23)

Em seu pioneiro trabalho sobre a Medicina Chinesa no ocidente, “The Web That Has No Weaver”, Ted Kapchup comenta o erro nas traduções do Wu Xing pelos autores ocidentais:

“As Cinco Fases não são de maneira nenhuma constituintes da matéria. Este equívoco tem sido incorporado no erro comum de tradução; “Cinco Elementos” e exemplifica os problemas que surgem ao olharmos as coisas chinesas com o modelo de referência ocidental. O termo chinês que nós traduzimos como Cinco Fases é Wu Xing. Wu é o número cinco e Xing significa andar ou mover e talvez, mais adequadamente, nos traz a idéia de um processo. O Wu Xing, portanto são cinco tipos de processos, por conseguinte as Cinco Fases e não os Cinco Elementos. A teoria das fases é um sistema de correspondências e padrões que inserem eventos e coisas, especialmente em relação as suas dinâmicas. Mais especificamente cada Fase é um emblema que denota uma categoria de qualidades e funções relacionadas. A Fase chamada Madeira está associada com funções ativas que estão na fase de crescimento. O Fogo designa uma função que atingiu o seu máximo estado de atividade e está para começar a declinar ou entrar em um estado de repouso. Metal representa a função em um estado de declínio. A Água representa a Fase que atingiu o máximo estado de repouso e está para mudar em direção a atividade. Finalmente a Terra designa equilíbrio ou neutralidade, em certo sentido, a Terra é o pára-choque entre as outras Fases. Em um sentido que as Fases correlacionam-se a fenômenos observáveis da vida humana dentro de imagens derivadas do macrocosmos. Elas têm uma função similar dos elementos em outros sistemas médicos. Em termos mais concretos as Cinco Fases podem ser usadas para descrever os ciclos biológicos em termos de crescimento e desenvolvimento. A madeira corresponde a Primavera, O Fogo ao verão, o Metal ao outono e a Água ao inverno. E a Terra corresponde a transição em cada estação.” (Kapchup, 1983: 343)

Os Cinco Elementos ou Fases correspondem a cinco tipos de movimentação da matéria. O povo da China antiga durante os longos anos de existência, reconhecia a madeira, o fogo, a terra, o metal e a água como os elementos mais básicos e indispensáveis da natureza e os denominava as cinco matérias Wu Cai.

O principal expoente da teoria das Cinco Fases, Wu Xing, foi Zou Yan, que viveu entre 350 a 270 A C, ele procurava interpretar as mudanças sócio-políticas de acordo com a teoria dos Cinco Elementos, certa vez afirmou:

“Cada um dos Cinco Elementos é seguido por outro que não pode dominar. A dinastia Shun, dominava pela virtude da Terra, a dinastia Xia dominava pela virtude da Madeira, a dinastia Shang dominava pela virtude do Metal e a dinastia Zhou dominava pela virtude do Fogo. Quando alguma dinastia nova está para se Formar, o céu exibe sinais propícios para as pessoas. Durante a ascensão da dinastia Huang Ti ( o Imperador Amarelo), vermes e formigas grandes apareceram. Ele disse: “isto indica que o elemento Terra está em ascensão, então a cor deve ser amarela, e os nossos negócios devem estar identificados de acordo com os sinais da Terra”. Durante a ascensão de Yu, o Grande, o céu produziu plantas e árvores as quais não murcham no outono nem no inverno. Ele disse: isto é uma indicação de que o elemento Madeira está em ascensão, então nossa cor deve ser verde e nossos negócios devem estar identificados de acordo com os sinais da madeira’… (Maciocia, 1996: 24)

Existem, tradicionalmente, duas sequências de relações entre os Cinco Movimentos, Fases ou Elementos: A seqüência de geração e a seqüência de dominância que tem implicações na fisiologia, patologia, diagnóstico  e tratamento na Medicina Chinesa de correspondência sistemática. Foge ao objetivo desta pesquisa detalhar cada uma das aplicações das Cinco Fases na Medicina Chinesa mas vamos citar as palavras de Maciocia em relação as seqüências de geração e dominância:

“Na seqüência de geração cada Elemento gera o outro, sendo ao mesmo tempo gerado. Assim a Madeira gera o fogo, o Fogo gera a Terra, a Terra gera o Metal, o Metal gera a Água, e a Água gera a Madeira. Desta forma, por exemplo, a Madeira é gerada pela água, que por sua vez gera o Fogo. Isto é algumas vezes expressado como; a Madeira é filha da Água e mãe do Fogo. Na seqüência de controle cada elemento controla o outro ao mesmo tempo que é controlado. Assim Madeira controla a Terra, Terra controla a Água, a Água controla o Fogo, o Fogo controla o Metal e o Metal controla a Madeira. Por exemplo: a Madeira controla a Terra mas é controlada pelo Metal. A seqüência de Controle assegura que um equilíbrio seja mantido entre os Cinco Elementos.” ( Maciocia, 1996: 27)

Posteriormente, As Cinco Fases ou Cinco Elementos foram associados a teoria do Yin-Yang, que era mais antiga e utilizados em conjunto na medicina de correspondência sistemática. Este sincretismo entre as teorias do Yin-Yang e das Cinco Fases com o conceito do QI e dos meridianos chineses, Jing-Lo, veio formar os pilares da medicina de correspondência sistemática, que apresenta como primeiro texto o Huang Ti Nei Ching; compilação dos conhecimentos da Medicina Chinesa clássica até o século II a.C.

Em relação a correspondência dos Cinco Elementos dentro da Medicina Chinesa Giovanni Maciocia afirma:

“O sistema de correspondências é uma parte importante da Teoria dos Cinco Elementos. Este sistema é típico do pensamento chinês, conectando muitos fenômenos diferentes e qualidades dentro do microcosmo e o macrocosmo sob a proteção de um determinado Elemento. Os antigos filósofos chineses encontraram uma relação entre fenômenos aparentemente não conectados como um tipo de “ressonância” entre os mesmos. Vários tipos de fenômenos estariam unificados por uma qualidade comum indefinida, assim como dois fios vibrariam em uníssono. Um dos aspectos mais típicos da Medicina Chinesa é a ressonância comum entre os fenômenos da Natureza e do organismo. Algumas destas correspondências são amplamente verificadas e experimentadas o tempo todo na prática clínica, sendo que algumas parecem não convincentes, mas persiste a sensação de que há uma sabedoria profunda por trás de todas elas, a qual é ocasionalmente desconhecida.” (Maciocia, 1996:28)

Algumas das correspondências dos Cinco Elementos:                                                               

                      Madeira               Fogo              Terra             Metal              Água

            

Estações         Primavera            Verão            Canícula        Outono           Inverno

 

Direções         Leste                     Sul                 Centro           Oeste             Norte

 

Cores              Verde                 Vermelho        Amarelo         Branco           Negro

 

Sabores           Ácido                 Amargo           Doce               Picante          Salgado

 

Climas            Vento                 Calor                Umidade         Secura           Frio

 

Desenvolvimento    Nascimento      Crescimento    Transformação   Colheita      Armazenamento   

 

Órgãos Yin      Fígado              Coração          Baço-Pâncreas     Pulmão          Rim

 

Víscera Yang    Vesícula         Intestino           Estômago            Intestino        Bexiga

                               Biliar            Delgado                                         Grosso

 

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.