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A DINASTIA HAN: OS PRIMEIROS TEXTOS DE ACUPUNTURA

A dinastia Han teve início em 206 A C após a derrubada dos Qin pelos camponeses e prolongou-se até 220 da nossa era. O fundador da dinastia Han, Gao Zu, não esqueceu a sua origem humilde ao formar um governo considerado um dos mais responsáveis da história chinesa; ele moderou a severidade do governo dos Qin, diminuiu os impostos e atenuou o controle feito pelo governo sem deixar de manter sua organização.

Os chineses apontam esta era como sendo um período de extrema realização cultural digna de exaltação. Durante este período, a cultura chinesa, incluindo a medicina cresceram com uma velocidade espantosa, foram os quatro séculos de maior importância para a Medicina Chinesa. Birch e Felt no interessante trabalho “Entendendo a Acupuntura” colocam as principais razões que levaram a este período de mudanças:

“A forma de governo severa dos Qin fizera desaparecer as instituições e as forças sociais que poderiam se opor as mudanças, purificando e tornando o solo fértil para a germinação e frutificação das inovações, para as explorações e invenções. Não foram somente as barreiras culturais que foram eliminadas: a sociedade e a economia chinesas estavam geofisicamente mais acessíveis entre si. Estradas e canais ligavam antigas cidades amplamente autônomas e todas as classes da sociedade beneficiadas pela riqueza crescente que tinha origem no comércio e pela independência econômica estabelecida. Por muito pouco a corte e os ricos conseguiam obter mercadorias estrangeiras. Os lordes feudais não mais controlavam a vida social e religiosa e surgiu uma classe educada que sobrevivia independente  da riqueza ou de patronatos.”(Birch e Felt, 2002: 15)

 

Um possível impulso para este crescimento cultural teria sido o contato com regiões     ao ocidente da China. O intercâmbio de idéias e teorias poderia ter impulsionado o desenvolvimento da Medicina Chinesa. Sabemos que foi durante a dinastia Han que o budismo foi introduzido na China proveniente da Índia junto com o budismo vieram teorias da Medicina praticada na Índia naquela época.

No período do reinado do imperador Wu Di durante a chamada “Western Han Dynasty” ( 206 A C a 24 D C) a China estava em guerra contra reinos do nordeste comandados por Xuong Nu. Em 138 A C o imperador Wu Di enviou Zhang Qian para regiões ao ocidente que descobriu muitos países  ricos no distante ocidente. Bozan, Xunzheng e Hua afirmam:

“ A história começa com a tomada por Xuong Nu de vários pequenos estados nas regiões ocidentais. Em 138 A C Wu Di  enviou Zhang Qian ( ?-114 A C) para estas regiões. Zhang Qian descobriu que haviam muitos países prósperos e ricos no distante ocidente. Em 121 A C as tropas de “Western Han” abriram a rota através do corredor de Ganzu para as regiões ocidentais. Mais tarde com a cooperação do povo de Wu Sun, as tropas chinesas… conquistaram vários estados nas regiões ocidentais…Deste momento em diante comerciantes da China e Ásia central enviaram mercadorias chinesas, particularmente seda, para o ocidente distante:…Pérsia, Índia  e cidades do Império Romano. Destes paises eles traziam produtos para os governantes e pessoas da região central…” (Bozan, 86:25)

 

     Esta afirmação é ratificada por Svoboda e Lade:

“Historicamente a era da dinastia Han foi um período em que a atenção dos chineses se voltou para o exterior. Por volta de 138 A C, a Estrada da Seda para oeste e a Estrada da Birmânia (115 A C) para o sul havia aberto o comércio e o intercâmbio de idéias e tecnologias com terras estrangeiras. Na fronteira ocidental da China, além das montanhas Kun Lun, um ramo da Estrada da Seda rumava ao sul e conduzia a Índia. A China também embarcou em grandes navegações exploratórias para abrir rotas marítimas ao sul e ao leste. Ao final do século II A C, barcos da China Imperial haviam alcançado costas distantes do Oceano Índico, sendo referido como o litoral do atual Sri Lanka, na época em que a civilização e a religião indianas estavam se espalhando rapidamente.” ( Svoboda e Lade, 1995: 82)

A dinastia Han foi o período em que a medicina de correspondência sistemática atingiu a sua maioridade. Durante este período de quatro séculos, de II AC a II DC, foram escritos os principais trabalhos da Medicina Chinesa que iriam, sem sombra de dúvidas, influenciar o pensamento médico na China pelos próximos 2000 anos. Sobre este período de desenvolvimento do pensamento médico na China Birch e Felt colocam:

“ Não permanece claro como todos os aspectos da medicina de correspondência sistemática surgiram, também, não se deve deduzir pela nossa apresentação cronológica que este processo tenha ocorrido de forma equilibrada e ordenada. Por exemplo, enquanto o crédito da origem do conceito dos cinco elementos é dado a Zou Yan ( 350 a 270 A C), a concepção grega dos quatro elementos e a série indiana dos cinco elementos são produtos do ano 600 A C aproximadamente, e poderiam ser com justiça, os precursores da teoria chinesa dos cinco elementos.” (Birch e Felt, 2002: 16)

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

O FINAL DA DINASTIA HAN

O FINAL DA DINASTIA HAN: A MEDICINA INTERNA CHINESA

Zhang Zhong Jing viveu de 150 a 219 da nossa era e é descrito como o “sábio da medicina”. O médico nasceu no distrito de Nanyang, província de Henan, região central da China ao sul de Beijing. No ano de 198 escreveu o Shang Han Lun, o tratado sobre as doenças induzidas pelo frio, e um segundo trabalho mais tarde: o Jin Gui Yu Han Yao Lue ou  sumário dos elementos mais importantes do baú dourado e do recipiente de jade. Ambos os trabalhos fazem parte da assim chamada Medicina Interna Chinesa onde o ênfase está no uso das drogas, a maioria delas plantas medicinais, de acordo com o diagnóstico pelo pulso. Birch e Felt afirmam:

“O Shang Han Lun classifica a evolução das doenças epidêmicas em seis níveis e descreve o tratamento específico para cada estágio. Os tratamentos se baseiam em várias substâncias medicinais colocadas juntas em uma decocção seguindo os princípios do Yin-Yang. Cada substância pode ser modificada de acordo com as manifestações observadas junto ao leito do paciente. O texto possui algumas breves referências a aplicação de agulhas inclusive a utilização do método wei jiu de agulhar com aquecimento, podendo ser a origem das técnicas modernas de agulhas aquecidas por meio de moxas. Por fim, Zhang Zhong Jin teve um efeito profundo e duradouro na prática e no desenvolvimento da farmacologia chinesa…”( Birch e Felt, 2002: 26)

Outro importante médico do final da dinastia Han foi Hua To que nasceu na província de An Hui, próximo a Shanghai, em aproximadamente 110 D C. O médico tornou-se famoso devido aos procedimentos cirúrgicos e anestésicos que utilizava, pela sua habilidade no diagnóstico e pela criação de uma série de exercícios físicos para promover a saúde. Svoboda e Lade afirmam com relação as práticas cirúrgicas de Hua To:    

“Uma interessante figura deste período foi Hua To ( 110 a 208 D C), que é reverenciado como médico e cirurgião brilhante, e também como criador de diversos exercícios físicos taoístas ( Dao Yin), especialmente o sistema baseado nos movimentos de cinco animais. Os relatos de suas técnicas cirúrgicas têm notável semelhança com os métodos cirúrgicos expostos nos textos ayurvédicos, em especial o uso de um preparado a base de cânhamo (ma fei san) para gerar um efeito analgésico no paciente antes da operação. Provas circunstanciais indicam de fato que Hua To, muito provavelmente, Assimilou ao menos algumas de suas habilidades de fontes indianas.”

( Svoboda e Lade, 1995; 83)

 Esta interessante colocação  pelos autores peca por não fornecer as referências bibliográficas as “provas circunstanciais” indicando a influência das práticas de Hua To pela tradição cirúrgica indiana, provavelmente mais antiga que teve como principal expoente, um médico cirurgião chamado Sushruta que deu o nome ao tratado mais antigo de cirurgia que chegou aos nossos dias: Sushruta Samhita.

     O Shen Nong Bemcao Ching ou Clássico da Medicina Herbácea foi provavelmente compilado durante a dinastia Han e parece ter recebido alguma influência de fontes ocidentais a China. Hoize e Hoize afirmam:

….”a expansão política e o crescimento das relações comerciais durante a dinastia Han introduziu na China novas plantas como a alfafa e a videira de “xiyu”, ou seja paises ocidentais, isto é regiões situada a oeste do oásis  Dunhuang na estrada da seda…” (Hoizey e Hoizey, 1993: 40)

A famosa Estrada da Seda, por onde haviam as trocas comerciais, caminhava em direção ao ocidente e tinha um ramo que chegava diretamente no sul da Ásia, região do

subcontinente indiano. A tradição do uso de plantas medicinais na Índia é muito antiga e remonta do terceiro milênio A C, logo as trocas podem ter acontecido nos dois sentidos pois ambas as tradições, chinesa e indiana, têm  farmacopéias muito ricas com a descrição de centenas de plantas medicinais para o uso terapêutico. Hoizey e Hoizey afirmam:

“O Shen Nong BenCao Ching ou o Clássico da medicina Herbácea foi  compilado durante a dinastia Han, provavelmente em algum momento no primeiro século D C. Ele introduziu um novo termo, Benção, literalmente erva essencial, e listou 365 drogas: 252 plantas medicinais, 67 de origem animal e 46 de fontes minerais…”(Hoize e Hoize, 1993:40)

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.