medicina chinesa

A TRADIÇÃO CHINESA

A TRADIÇÃO CHINESA

A  história da medicina chinesa começa em tempos pré-históricos com o mito: a lenda do Imperador Amarelo, Huang Ti, que reinava na região central da China ( Hoizey ; A History of Chinese Medicine) e o seu rival o Imperador do Fogo que comandava as terras ao sul da China. Conta a lenda que o Imperador do Fogo tinha o poder de, ao provar uma planta, determinar a natureza desta planta e também é creditado a ele o ensino do cultivo dos  cereais , de onde vem o seu titulo de fazendeiro divino, Shen Nung.

Shen Nung e Huang Ti são personagens lendários da Medicina Chinesa e ambos deram seus nomes a dois grandes clássicos : o Huang Ti Nei Ching ( O Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo) e o Shen Nung Pen-Tsao Ching ( O Clássico da Medicina Herbácea ).

 

A   DINASTIA   ZHOU

A dinastia Zhou é dividida em: Western Zhou do século XI  A.C. ao ano 771 A.C. e a Eastern Zhou que vai de 770 A .C. a 221 A .C..( Ver “A Concise History of China” , Bozan, Xunzheng e Hua). A dinastia Zhou, como muitas que a sucederam, estabeleceu-se por meio da conquista sobre a dinastia anterior os Shang ( 1523 a 1027 A.C. ) esta era foi considerada a idade clássica do bronze  na China ( Ver “Entendendo a Acupuntura” de Birch e Felt).

 

A familia Zhou conseguiu consolidar o seu poder sobre os Shang, dinastia anterior que reinou do século XVII A.C.. ao século XI  A. C., com ajuda de nobres dissidentes dos Shang. Esta conquista dos Zhou  teve suas raízes na falha da dinastia anterior em guardar seus territórios adequadamente e também na superioridade agrícola dos Zhou sobre os Shang.

“Esta produtividade vinha de sistemas de irrigação administrados pela comunidade. A inovação permitia um superávit nas colheitas e reduzia o numero de operários necessários para alimentar a população. Assim os governantes Zhou ficavam a vontade para recrutar enormes exércitos da classe camponesa” ( Ver “ Entendendo a Acupuntura”Birch e Felt, 2002: p. 9)

 

Os Zhou tinham uma estrutura geofísica de governo semelhante ao feudalismo europeu. A nova capital em Shensi estava circundada por propriedades de parentes reais, alem destes estavam as terras dos sobreviventes dos Shang. Os arrendatários do feudo forneciam mão de obra para as terras do soberano e soldados para seus exércitos, mas fora isto ficavam ocupados com seus próprios interesses.

A dinastia Zhou é dividida em 3 partes por Birch e Felt:

  1. O inicio da dinastia Zhou, 1027 a 772 A.C.: feudalismo clássico da China.
  2. O período médio da dinastia Zhou, 772 a 480 C.: o declínio do feudalismo.
  3. O período final da dinastia Zhou, 480 a 221 A.C.: os estados combatentes.( Ver Birch e Felt, 2002: 10 e 11)

 

O elo entre a nobreza e o sobrenatural era uma força ativa importante na China dos Zhou, Os nobres da dinastia Shang sobreviveram à vitória dos Zhou e os Zhou adotaram, durante o inicio do seu reinado, os Wu, que eram na verdade lideres Shamans  dos Shang. Esta foi a dinastia anterior conhecida como a idade clássica do bronze na China.

 

…”a descoberta de uma variedade extraordinária de peças em bronze mostra que os Shang tinham alcançado a Idade do Bronze”…(Bozan, Xucheng e Hua, 1986: p. 10)

 

Os Wu, segundo a lenda, possuíam poderes mágicos, eram Shamans com importantes obrigações durante a dinastia Zhou. Eva Wong coloca como funções dos Shamans na sociedade Zhou as seguintes:

 

  • Convidar os espíritos: uma importante tarefa dos Shamans da dinastia Zhou era convidar os espíritos para o reino mortal e oferecer a si mesmo como morada para o espírito ficar temporariamente.

 

  • Interpretar os sonhos: os sonhos eram considerados transportadores de presságios, e uma das tarefas do Shaman era interpretar estas mensagens dos espíritos.

 

  • Leitura de presságios: outra tarefa do Shaman era observar as mudanças da natureza, prever o curso dos eventos e decidir se era auspicioso ou não engajar-se em certas atividades. Portanto ,na dinastia Zhou , o Shaman era perito no conhecimento do I Ching (o clássico trabalho divinatório da antiga China conhecido como o Livro das Mutações ).

 

  • Fazer chover: também era tarefa do Shaman rezar para a chuva. A cerimônia de fazer chover envolvia a dança e o canto.

 

  • Cura: a cura era outra importante tarefa do Shaman..Os antigos chineses  acreditavam que a doença era resultado de espíritos malignos que invadiam o corpo era então lógico que a tarefa de curar deveria cair nos ombros do Shaman, que tinha a habilidade de lidar com os espíritos bons e ruins.

 

  • Divinação celestial: durante a parte final da dinastia Zhou, a divinação celestial era muito popular. Acreditava-se que dar harmonia aos céus iria levar a paz, prosperidade e harmonia na terra. A chave para a paz e prosperidade estava em seguir o “Caminho Celestial” ou a vontade dos céus e para que o “Caminho Celestial” fosse seguido o significado dos fenômenos celestiais deveriam ser interpretados, logo os Shamans eram empregados na corte para observar os céus e interpretar os eventos celestiais. (Ver Eva Wong, 1997: p. 14 e 15)

 

O posto de um Shaman Wu era a posição mais elevada e eram membros da família real, os Wu eram responsáveis pelos sacrifícios a Di, considerado o supremo ancestral. Nas palavras de Paul Unschuld:

 

“O centro pictográfico do ideograma Wu  mostra um dançarino, e era a responsabilidade mais importante destes profissionais assegurar, por meio das danças e dos gritos, a vinda da chuva, tão importante no norte da China. Além disto os Wu eram chamados para reduzir tempestades violentas, chuva em excesso e depurar aposentos do palácio de influencias malignas, serpentes e outras criaturas venenosas.”( Uncshuld, 1985: 35)

 

Durante o período dos Zhou  o Di, a suprema divindade ancestral, dos Shang foi gradualmente sendo substituído pela divindade celestial Tian. A medida que Tian tornava-se mais importante que Di os Shamans Wu foram perdendo o seu status dentro da família real e foram, lentamente sendo substituídos por outra classe de Shamans que tinham acesso a divindade celestial Tian: os Zhu. Os Wu desceram a classes inferiores pois o contato com Di já não era valorizado pela nobreza, mas continuaram durante a dinastia Zhou a praticar a medicina mágico-demonológica. Unschuld coloca a importância destes Shamans neste período:

 

“Os profissionais Wu acharam necessário utilizar seus contatos com deuses das altas classes para restringir os espíritos menores e os demônios prejudiciais ao homem, o exorcismo tornou-se sua principal responsabilidade. Três vezes ao ano os Wu praticavam um papel decisivo em expelir demônios causadores de doenças nos estabelecimentos humanos. Além disto eles juntavam a sua volta clientes que necessitavam de tratamento individual…” (Unschuld, 1985; 36)

 

Assim como a medicina ancestral, a medicina mágico-demonológica acredita que existem seres, visíveis e invisíveis, que habitam o universo junto com o homem. Diferente dos Shang, a dinastia anterior aos Zhou, que acreditava que cada ancestral estava associado com um individuo vivo especifico, porem na medicina mágico-demonológica não existe conexão entre um demônio individual e um ser humano especifico. A medicina mágico-demonológica acredita que a doença é causada pela ação de espíritos malignos devido a isto a necessidade do Shaman ou sacerdote que irá intervir para expulsar o espirito invasor e restabelecer a saúde.

 

Neste período  surgiu  a crença que o ser humano tinha 2 almas: a alma corpórea ou Po e a alma etérea ou Hun. Unschuld, considerado um dos maiores sinólogos especialista em Medicina Chinesa afirma:

 

“A assim chamada alma corpórea ( Po) esta presente no corpo desde o nascimento e morre junto com o corpo durante a morte. A alma etérea ( Hun) entra no corpo somente mais tarde após o nascimento, durante o período do sono ou de perda da consciência ela pode temporariamente deixar o corpo, e após a morte ela vagueia sozinha através do espaço e do tempo”(Unschuld, 1985: 38)

 

Maciocia em Fundamentos da Medicina Chinesa escreve:

 

“O conceito de alma etérea esta intimamente vinculado as antigas crenças chinesas sobre espíritos e demônios. De acordo com estas crenças espíritos e demônios são criaturas com forma de espíritos que preservam a aparência física e vagam pelo mundo dos espíritos. Alguns são bons e outros ruins. No período anterior a guerra  dos estados ( 476 a 221 A. C.) tais espíritos  eram considerados as principais causas das patologias. Desde a guerra dos estados as causas naturalísticas das patologias ( tais como o tempo ) substituíram estas crenças, as quais, todavia, nunca desapareceram totalmente até o presente momento.” (Maciocia, 1996:p.106)

 

A crença que os espíritos e demônios podem ser responsáveis pelas doenças está largamente documentada  na literatura da dinastia Zhou no seu período tardio assim como nas dinastias subsequentes Chin e Han. O filósofo legalista chines Han Fei, morto  em 233  A. C., expressa uma atitude comum em sua época através da seguinte afirmação:

 

“Quando uma pessoa fica doente significa que ela foi prejudicada por um demônio”( Han Fei em Unschuld, 1985: p. 39)

 

O tratamento da medicina mágico-demonológica era feito através de exorcismos e magia mas estas praticas terapêuticas eram transmitidas oralmente e de forma secreta. Quando eu estudei na China, durante os anos 90, ouvi certa vez de um amigo chinês um ditado que  resume  esta tendência da transmissão oral de forma secreta: “ensina-se para os de dentro não se ensina para os de fora, ensina-se para os homens não se ensina para as mulheres”. O conhecimento da medicina, tradicionalmente era passado oralmente para os “de dentro”, ou seja, familiares ou discípulos merecedores, os “de fora” desconhecidos ou pessoas de outras famílias não eram aceitos como alunos assim como as mulheres normalmente não recebiam este conhecimento pois tinham um outro papel na sociedade chinesa antiga. Esta tendência de excluir a mulher da prática médica transformou-se totalmente na China contemporânea pois as minhas professoras chinesas, chefes do departamento de acupuntura e Medicina Interna Chinesa, eram mulheres muito atribuladas com o ensino e a prática da Medicina Tradicional Chinesa. Vejamos a afirmação de Unschuld sobre o ideograma arcaico de cura:

 

“O antigo ideograma para cura e médico yi foi formado durante a dinastia Zhou. A parte inferior do ideograma consiste de Wu ou Shaman, já a parte superior combina tremer com uma flecha a direita e uma lança a esquerda. Este ideograma resume a pratica feita pelos Shamans durante os rituais de magia e exorcismo”.  (Unschuld, 1985: p. 37).

 

No ano de 168 A. C., durante a dinastia Han ( 206 A  C. a 220 D. C.), o lorde de Daí , então com 30 anos, foi enterrado junto com manuscritos de seda, que apenas foram descobertos em 1973, em Changsha, província de Hunan, região ao sul da China. Ficaram conhecidos como os manuscritos de Ma Wan Dui, que incluem 14 textos muito importantes na história antiga da Medicina Chinesa. Birch e felt comentam:

“Eles documentam virtualmente todos os antigos tratamentos nativos: demonologia, mágica, pequenas cirurgias, e farmacologia, assim como os primeiros conceitos da     correspondência sistemática. Os manuscritos lembram as inscrições de bronze da dinastia Qin (221 a 206 A. C.), por isto é possível que estes manuscritos já fossem antigos mesmo antes que o jovem príncipe tivesse nascido. O cemitério também contem uma copia do Yi Jing ( o livro das mutações ) escrito em seda cujos hexagramas apresentam uma ordem que pode ser anterior a ordem clássica. Certamente, estes manuscritos são mais antigos do que o Nei Jing.”(Birch e Felt, 2002: 25)

Uma recente tradução de parte destes manuscritos por Donald Harper demonstrou uma desconhecida sofisticação dos conceitos e praticas da medicina mágico-demonológica que deve ter sido o resultado dos esforços intelectuais pelas melhores mentes da  sociedade chinesa antiga. Varias prescrições encontradas nos manuscritos de Ma Wan Dui combinam conceitos da medicina mágico-demonológica com rituais de exorcismos associado ao uso de talismãs feitos de madeira, jade ou ouro que ficavam presos a cintura, braços, ou ao chapéu  com o objetivo de prevenir doenças e até mesmo epidemias. Estes amuletos eram largamente utilizados pelos chineses de várias classes sociais durante a dinastia Han.

O ano de 771 A. C. apresenta um “ponto de mutação” na historia da dinastia Zhou pois o equilíbrio que existia no inicio desta dinastia, que era baseado em uma organização feudal, foi quebrado. As forças estrangeiras com as quais o rei dos Zhou se aliara para vencer uma sangrenta guerra de sucessão se recusaram a entregar o território conquistado. Os Zhou foram forçados a mudar a capital para uma região mais ao leste em Lê Yi de onde os historiadores chineses tiraram o nome para designar o período ”Dinastia Zhou do Leste” .

A história em seu sentido moderno iniciou-se na dinastia Zhou por volta de 772 A.C., deste ponto até a unificação em 221  A C. a história da China é caracterizada por um período quase que ininterrupto de guerras e hostilidades. Nos últimos anos da dinastia Zhou esta tendência alcançou seu extremo com a instituição de um estado baseado no cultivo da agricultura e no uso das armas. Sobre a medicina na dinastia Zhou Birch e Felt no seu interessante “Entendendo a Acupuntura” afirmam:

 

“Porem a medicina começou a existir dissociada da idéia da conciliação com os ancestrais e a demonologia e iniciou um processo de separação da religião durante esta época. Nos arquivos dos Zhou encontramos 4 tipos de doutores: médicos, cirurgiões, nutricionistas e veterinários”. ( Birch e Felt ,2002: p.  10)

Hoize e Hoize no seu livro “History of Chinese Medicine” retifica a afirmação de Birch e Felt:

“A prática médica durante a dinastia conhecida como “Western Zhou “ testemunhou o inicio de uma organização. O termo Yi ( médico) já se referia nesta época a diferentes funções, ao ponto de poder-se falar em especialização. No topo da hierarquia médica estavam o yi shi ( médico mestre ) apesar que de acordo com o Rituais dos Zhou haviam algumas categorias de médicos na corte cada um responsável por uma função particular. Havia os ji yi ( médicos para cura das doenças) que estavam relacionados a medicina interna, enquanto era função do yang yi ( médico para tratamento dos ferimentos) tratar alterações cutâneas, injurias, traumatismos e fraturas. Finalmente havia os shi yi ( médicos para nutrição) que atuavam como nutrólogos. Havia também médicos para animais, os primeiros veterinários chineses.” (Hoize e Hoize, 1993: p. 19 e 20)

 

O texto dos Rituais dos Zhou conhecido como Zhou Li tian Guan afirma:

“ O doutor principal supervisiona todas as questões relativas a medicina e faz a coleta das drogas para propósitos medicinais. Ele dirige os outros doutores a se encarregarem dos diferentes departamentos, de forma que permita aos doentes e feridos irem até eles. No final do ano o trabalho que realizaram é examinado e o salário de cada um é fixado de acordo com os resultados apresentados. Se em todos os casos houver cura é excelente; se houver um fracasso em cada 10 casos, fica sendo o segundo; se for 2 em cada 10 casos terceiro; 3 em 10 o quarto; e se for 4 entre 10 é ruim.”(Birch e Felt, 2002)

 

No período médio da dinastia Zhou ( 772 a 480 A. C.) inicia-se a confecção, desenvolvimento e produção de peças de metais que posteriormente levariam a fabricação das agulhas de acupuntura. A acupuntura apenas tornou-se popular na dinastia Han onde foram publicados os principais textos clássicos: Nei Ching e Nan Ching

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.