Estudo Comparado das Tradições Orientais: Medicina Chinesa e Ayurveda

As pessoas no ocidente cada vez mais utilizam termos orientais no seu dia a dia, sem muitas vezes conhecerem o significado exato daquela palavra ou utilizando uma “ocidentalização” do termo oriental. Yoga, Tai Chi, Acupuntura, Shiatsu são palavras de origem oriental que são utilizadas normalmente nos nossos “bate papos” porem muitas vezes desconhecemos a origem e formação daquele conceito e seu desenvolvimento histórico.

A Medicina Chinesa e o Ayurveda são racionalidades médicas que estão se tornando opções cada vez mais freqüentes à medicina alopática em busca da saúde e do alívio da dor. Porém estes sistemas médicos não são homogêneos como pode parecer a primeira vista, mas racionalidades extremamente complexas que levaram centenas de anos para atingir a sua maturidade.

O conceito de racionalidade médica que nós utilizamos refere-se ao definido pela profa. Madel Luz, construído a partir da noção de tipos ideais como instrumentos para a análise de sistemas médicos complexos(Luz, 1993 ). Neste conceito, uma racionalidade médica pode ser entendida como um corpo teórico constituído por cinco dimensões teóricas, a saber:doutrina, morfologia,dinâmica vital,sistema diagnóstico e sistema terapêutico.

Estas cinco dimensões estão teoricamente vinculadas, a uma base cosmológica, que serve como expressão de concepções metafísicas dessa racionalidade sendo na Medicina Chinesa relacionada com o pensamento Taoista, Confucionista e Budista, e no Ayurveda a concepção da filosofia Budista e Hindu que não são homogêneas nos seus conceitos.

Muitos profissionais que trabalham com as racionalidades médicas orientais: chinesa ou indiana desconhecem o período de formação e desenvolvimento histórico destes sistemas médicos e passam a repetir muitas vezes aquilo que lhes é ensinado sem uma abordagem crítica e tomando aquela afirmação como verdade. Um exemplo claro disto é a afirmação, entre os profissionais que trabalham com Medicina Oriental, de que acupuntura tem cinco mil anos de existência. Afirmação que não tem nenhum respaldo da literatura pois para que exista a acupuntura 4 coisas são fundamentais: a punção de agulhas, em pontos específicos do corpo( acupontos) que estão relacionados aos condutos ou meridianos e a circulação nestes vasos do Qi que recebe a influencia da manipulação das agulhas. Em outras palavras sem fluxo de Qi por condutos e acupontos que são estimulados, por agulhas, para influenciar este Qi não existe acupuntura dentro do conceito da medicina de correspondência sistemática.Colocar agulhas na pele apenas não está caracterizado a pratica de acupuntura.(Unschuld, 1985: 92-95) Esta pratica só começou a ser descrita na literatura chinesa a partir do segundo para o primeiro século A C. na dinastia Han ( 206 A C a 220 D C) ou seja sabemos, com certeza que a acupuntura tem cerca de 2200 anos o resto é lenda que não pode ser referendada pelos textos chineses antigos.

Esta pesquisa aborda justamente este período de formação das racionalidades médicas orientais chinesa e indiana com o objetivo de estudar as suas histórias e apontar possíveis influencias recíprocas que tenham sido importantes no desenvolvimento e formação dos seus conceitos básicos. Uma importante distinção entre estas racionalidades e a racionalidade biomédica ocidental é que no Ayurveda e na Medicina Chinesa existem filosofias/religiões/mitologias que formaram o pano de fundo para os seus processos de desenvolvimento e amadurecimento destas racionalidades orientais.

Ambos os sistemas, chinês e indiano, tiveram uma influencia importante das tradições religiosas heterogênias dos dois países. Na China a influencia Confucionista/ Taoista e posteriormente Budista foi o combustível para a mudança de paradigma. Na Índia a influencia veio das tradições heterodoxas não védicas, ou seja, fora de castas, que não estavam limitados pelos dogmas da religião dos Vedas.Estas tradições, muitas vezes contraditórias e concorrentes foram que levaram as transformações que resultaram no amadurecimento, nem sempre suave, das racionalidades médicas chinesa e indiana.

Nós, ocidentais, que pegamos o bonde “chegando na estação” temos a ilusória tendência a acreditar que este amadurecimento foi fácil e “equilibrado”. Nada está mais distante da realidade pois as Medicinas Orientais não são racionalidades cientificas e sim sistemas que se desenvolveram a partir de crenças religiosas relacionadas ao contato com o sobrenatural que ainda hoje podemos encontrar no oriente.

Este trabalho não propõe verdades nem certezas, mas sim hipóteses que posam vir a ser desenvolvidas com o tempo e consultas em outras fontes primarias que atualmente estão inacessíveis devido a nossa falta de domínio das línguas chinesa e sânscrita e a inexistência de trabalhos traduzidos para o inglês. As hipóteses formuladas neste trabalho foram referendadas em uma pesquisa com diversos autores orientais e ocidentais que são considerados e respeitados dentro da sua área de atuação.

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